Corpo Fechado (2000)

28 ago

Se em O Sexto Sentido Shyamalan mostrou do que é capaz de fazer, seu filme seguinte, Corpo Fechado, nasceu para confirmar a excelência e o talento deste exímio cineasta, que tanto fascinou os cinéfilos com suas tramas irreais extremamente envolventes e reflexivas. Repetindo a parceria com Bruce Willis, o diretor entregou outra grande obra que, mesmo não sendo tão boa quanto sua produção anterior, também pouco fica devendo.

A trama gira em torno de David Dunn (Bruce Willis), um homem aparentemente triste cujo casamento não está nada bem e que trabalha como segurança de um estádio. Em uma de suas viagens onde se submetia a entrevistas para trabalhar em outros lugares também como segurança, o trem que David se encontrava descarrila e todos os passageiros morrem menos ele, que não sofrera nem um mínimo arranhão. Espantando os médicos e a si mesmo, o segurança conhece Elijah Price (Samuel L. Jackson), um estranho portador de uma doença genética que fragiliza seus ossos, sendo facilmente danificados, e passa a tentar convencer David que ele é seu oposto, um ‘super-herói’ inquebrável que a natureza criou para se contrapor ao que Elijah é. A partir daí, as teorias do estranho fanático por gibis e do segurança vão afunilando até que suas vidas sejam alteradas à medida que todos esses questionamentos sobre bem e mal, vida e morte, força e poder começam a ser desenvolvidos pelos personagens até culminar em um final, no mínimo, impressionante.

Novamente abordando situações fantásticas e inverossímeis, mas que despertam a curiosidade do espectador, o diretor cria um filme repleto de camadas absurdas, mas que são tão bem trabalhadas que se torna impossível não nos sentirmos no meio da trama. E desta vez, o diretor opta por deixar o sobrenatural de lado, utilizando um enredo fantasioso, mas que abrigam personagens humanos, reais. E o modo como Shyamalan convence o espectador deste universo é surpreendente, envolvendo o público em um clima tenso e angustiante, presente desde a primeira cena.

Utilizando uma narrativa sutil, mas de efeito devastador, o diretor confere grande densidade aos seus personagens. Seja nos ótimos diálogos ou nos enquadramentos de sua câmera, Shyamalan consegue o grande mérito de explorar cada um desses aspectos, e arranca atuações bastante eficientes de seu elenco. Assim como em O Sexto Sentido, Bruce Willis, mais conhecido por seus barulhentos filmes de ação, se mostra bastante à vontade no papel de David Dunn, entregando uma interpretação bastante sensível. Em contraponto, o sempre limitado Samuel L. Jackson (cuja melhor atuação havia sido em Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino) se encaixa como uma luva na pele do misterioso Elijah Wood. Seu personagem, aliás, é o mais interessante, uma vez que surge como um grande oposto ao personagem de Willis: cada um possui seu mundo, seu universo pessoal, mas o objetivo de ambos é o mesmo, encontrar sua verdadeira identidade. Ambos são seres contrários, mas de certo modo, se completam.

Já a talentosa Robin Wright Penn surge subaproveitada, mas é responsável por grandes cenas de conflitos familiares entre ela, o marido e o filho. Este, aliás, interpretado pelo pequeno Treat Clark, merece atenção, pois além da boa atuação, é responsável por cenas incrivelmente tensas, que também funcionam como parte da jornada de auto-descoberta de seu pai.

Além do grande roteiro e das atuações eficientes, a direção de Shyamalan não poderia passar em branco. Dono de grande habilidade em transmitir emoções profundas, o diretor novamente utiliza seus enquadramentos e movimentos de câmera precisos, não como algo exibicionista, mas como uma forma de desenvolver seu filme. É uma liberdade que poucos diretores possuem, e o direto sabe como usá-la ao seu favor.

Quanto ao desfecho, bem, este não é tão surpreendente quanto o de O Sexto Sentido, mas é perfeitamente coerente com a proposta do filme: encontrar sua verdadeira posição no mundo.

A técnica também é usada com inteligência, e surge como grande aliada em transmitir realidade durante a projeção. Destaca-se o trabalho de fotografia de Eduardo Serra (que já havia feito um trabalho fantástico no ótimo Amor Além da Vida), a direção de arte de Steve Arnold e a trilha sonora do sempre eficiente James Newton Howard, que realiza um trabalho sutil, mas intenso.

Ao final, Corpo Fechado é outro grande filme do diretor indiano. Apesar de algumas quedas de ritmo e em algumas seqüências, é um suspense tenso, mas também real e envolvente. De primeira vista a trama até pode aparenta ser boba, mas a força da condução de Shyamalan o torna um filme obrigatório para quem gosta do grande cinema.

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