Quanto Mais Wilder Melhor: A Vida de um Mestre

29 ago

É fácil se perguntar qual a melhor obra de autoria do diretor e roteirista Billy Wilder. Mas fica difícil encontrar um merecedor desse reconhecimento diante da vasta e bem sucedida filmografia do cineasta. E a razão maior para tantas opiniões diversas é uma: Wilder foi mestre em todos os gêneros que abordou, de modo que agradou a todos os gostos em sua ampla carreira.

Apesar do nome americanizado, Wilder é austríaco e seu primeiro nome verdadeiro é Samuel. Nascido em 22 de junho de 1906, numa cidade pertencente ao hoje extinto Império Austro-Húngaro, Wilder assumiu o primeiro nome “Billy” devido ao apelido dado por sua mãe na infância. E também desde pequeno que cultivava grande admiração e interesse pela cultura americana.

Depois de grande, morando em Viena, largou a faculdade de direito para seguir uma carreira jornalística. Uma coisa levou a outra e de jornalista passou a roteirista em Berlim. Seu primeiro projeto cinematográfico foi Homens no Domingo (Menschen am Sonntag, 1930), dirigido por Robert Siodmak e Edgar Ulmer, filme que marcou o início do aclamado realismo alemão. Tal produção abriu portas essenciais para Wilder, que então passou a integrar a UFA, o principal estúdio de cinema alemão dos anos 1920. Já na década de 1930, roteirizou inúmeros filmes e fez grandes amizades no ramo. Mas com a ascensão de Hitler na Alemanha obrigou Wilder, que era judeu, a fugir para Paris em 1933, onde co-dirigiu Semente Ruim (Mauvaise Graine, 1933). Logo em seguida partiu para Nova York, num outro continente, sendo recebido por seu irmão que já morava lá há alguns anos. Começou então sua longa jornada em território americano, assim como começava um novo capítulo na história do cinema.

O inglês foi um grande problema para Wilder e para todos os outros artistas refugiados da Alemanha, como Fritz Lang e Douglas Sirk. Mas por isolar-se dessa comunidade de artistas, Wilder conseguiu aprender bem o inglês, possibilitando sua carreira como futuro roteirista (se naturalizando americano algum tempo depois).

Depois de aprender o novo idioma, Wilder conseguiu um emprego na Paramount, iniciando uma grande amizade e parceria com o famoso roteirista Charles Brackett. Escreveram juntos grandes obras para grandes diretores, inclusive Ernst Lubitsch, o ídolo de Wilder. Foram também responsáveis pelo roteiro de Ninotchka (Ninotchka,1939), o famoso filme em que Greta Garbo finalmente solta uma risada. Foi também através de Ninotchka que ambos receberam a primeira indicação ao Oscar.

Mas seu temperamento e indignação com o meio de trabalho em Hollywood o levaram a decidir dirigir seus próprios projetos, tendo a oportunidade de alcançar uma tão desejada liberdade de expressão, onde não haveria produtores editando seus textos e adaptando-os segundo seus próprios critérios. A Incrível Suzana (The Major and the Minor, 1942) marcou essa nova fase, e daí em diante ele não parou mais. Juntou-se ao célebre escritor Raymond Chandler no filme Pacto de Sangue (Double Idemnity, 1944), uma de suas obras mais famosas que, juntamente com Testemunha de Acusação (Witness for the Prosecution, 1957), forma a dupla de filmes policiais mais clássicos do diretor.

Vieram então inúmeras obras-primas, como Farrapo Humano (The Lost Weekend, 1945), Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole, 1951), Sabrina (Sabrina, 1954) e Quanto Mais Quente Melhor (Some Like it Hot, 1959), considerada a grande comédia americana pelo American Film Institute.

Interessante notar que Wilder usou cada obra pra se especializar num gênero diferente. Quanto Mais Quente Melhor lhe trouxe a consagração na comédia, Sabrina no romance, Testemunha de Acusação no suspense e por aí vai. Se Meu Apartamento Falasse (The Apartament, 1960) é um caso à parte, em que o diretor mistura com maestria diversos gêneros. Mas foi com o insuperável Crepúsculo dos Deuses que Wilder se firmou eternamente como lenda, trazendo um retrato cáustico do seu próprio meio de trabalho. Os resultados desse conjunto de obras foram 21 indicações ao Oscar e 6 estatuetas levadas para casa (entre elas o Oscar especial Irving G. Thalberg, em 1988, considerado o prêmio máximo na carreira de um artista do ramo do cinema).

Mais do que filmes bons, mais do que obras-primas consagradas, Wilder foi um mestre em abordar a profundidade do ser humano em cada diferente trabalho. Sua visão madura e por muitas vezes cáustica da vida lhe capacitou a transitar sem dificuldades nas abordagens sobre o ser humano, dando maior conteúdo à sua inteira filmografia. Infelizmente, essa genialidade única se foi em 27 de março de 2002, quando a pneumonia levou embora a vida desse mestre, que deixou um legado de sabedoria e talento sem igual no cinema.

Sendo Wilder um roteirista hábil, que soube tirar o melhor de todos os gêneros, termino essa biografia citando uma frase dita pelo próprio cineasta, que resume bem seu estilo de trabalho:

“Fiz de tudo: fui roteirista, diretor… mas fazer apenas um gênero de filme? Não como todo dia no mesmo restaurante”


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