A Vila (2004)

30 ago

Seja para o bem ou para o mal, Shyamalan é um diretor único. Sempre utilizando argumentos fantasiosos (e que se tornam reais graças à sua mão), o indiano sempre constrói seus filmes não com o propósito de serem meros exemplares do gênero, mas sim com o objetivo de passar alguma mensagem relevante (tanto que a religiosidade e o espiritual estão sempre presentes em seus filmes).

A Vila é, para muitos, aquele que viria a ser o ponto de partida do declínio da carreira do indiano. E é interessante testemunhar como é a recepção de um filme de Shyamalan, especialmente por aqueles que não simpatizam com ele. Se o diretor comete um erro, este assume proporções tão gigantescas, que o resultado é um grupo de pessoas pondo defeitos onde não tem, tamanha a dificuldade em aceitar algo novo ou diferente.

O enredo de “A Vila” gira em torno de uma garota cega, Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), filha do líder de uma comunidade rural no interior da Pensilvânia (EUA). Os moradores da vila vivem isolados, sem contato com o mundo, pois estão ilhados em uma clareira, no meio de um bosque habitado por agressivas criaturas místicas. Estes, membros de uma raça temida pelos homens, tem um pacto com os humanos. Os animais respeitam as fronteiras da comunidade, desde que os humanos não tentem se aventurar pela mata. Acontecimentos extraordinários, porém, vão perturbar esse acordo tácito.

“A Vila” é aquele tipo de filme que, quanto menos o espectador souber da sinopse, melhor. E Shyamalan tem conhecimento disso. No início, o diretor se isenta de explicações, deixando ao espectador a tarefa de interpretar o que se passa na tela. É assim que Shyamalan pega o espectador: deixando a imaginação falar mais alto.

Mas se existe algo digno de nota no filme, é a sua atmosfera intrigante. Nunca antes o diretor havia apresentado tamanho cuidado na construção de um clima que possa manter a atenção de quem o assiste. Aproveitando as paisagens longas e vazias, Shyamalan insere o suspense na dosagem correta, tendo sempre o apoio da trilha sonora de James Newton Howard, que aqui faz um trabalho simplesmente maravilhoso. Do mesmo jeito, a fotografia natural de Roger Deakins se mostra um grande auxilio na criação desse tal clima de tensão.

Shyamalan também já havia se mostrado mestre em descobrir talentos escondidos (Bruce Willis e Mel Gibson estão aí para não me deixar mentir). Com a “A Vila” o diretor alcança outro grande acerto neste quesito. Sem dúvida nenhuma, Bryce Dallas Howard foi a revelação daquele ano. A filha do diretor Ron Howard, já em sua estreia no cinema, consegue se sair muito bem num papel de difícil interpretação. Pessoalmente, foi uma atuação digna de indicação ao Oscar.

Joaquim Phoenix, que já havia trabalhado com o diretor em Sinais, novamente faz um trabalho excelente, adotando um jeito tímido e conservado para o seu personagem. Infelizmente, este é diminuído na metade do filme e as atenções mudam de foco.

E falando em atores diminuídos, isto é o que não falta em “A Vila”. William Hurt, Sigourney Weaver, Adrien Brody, Brendan Gleeson, todos estes grandes intérpretes possuem papéis pequenos, que não condizem com a imponência que cada um deles garante em cena. Mas não se preocupe, isto é apenas um pequeno deslize do roteiro. Afinal, o que mais importa aqui é o clima imposto e como ele pode envolver o espectador, não o desenvolvimento dos personagens em si.

Finalmente, não poderia faltar aquela que se tornou a principal marca do diretor: o final surpresa. Mesmo que exagerando no número de reviravoltas (são três, numa clara tentativa de brincar com o público), o diretor surpreende mesmo é com a revelação definitiva, completamente inesperada. Nem mesmo as pistas deixadas ao longo da projeção conseguem antecipar os mais atentos.

A Vila ainda possui outros problemas de roteiro (como alguns diálogos furados), mas isso pouco importa quando, ao subir dos créditos, nos damos conta de que estivemos diante de outra grande obra do gênero suspense. Algo raro de se ver no cinema atual.

2 Respostas to “A Vila (2004)”

  1. heitoromero 31/08/2010 às 11:04 PM #

    A Vila é o meu preferido de Shyamalan, por isso gostei demais da crítica!
    Parabéns Rafael por sua análise sobre vida e obras de Shyamalan, ficou ótima!

  2. Rafael Oliveira 02/09/2010 às 10:08 PM #

    Valeu, Heitor! Isso me deixa muito feliz.

    E diferente de muitos, ainda curto o Shyamalan ;)

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