A Dama na Água (2006)

31 ago

Quando as primeiras críticas sobre A Dama na Água saíram, foi difícil acreditar que um filme do Shyamalan estivesse sendo tão escrachado. Está certo que o diretor possui uma grande parcela de “esse cara é uma mentira” por ai, mas até mesmo aqueles que admiravam o cineasta estavam condenando seu, até então, mais recente trabalho.

E confesso: precipitei-me antes de assistir ao filme. Sendo eu um grande fã do diretor, defendia “A Dama na Água” com unhas e dentes , mesmo antes de tê-lo visto. Como eu estava enganado…

A trama nos apresenta Cleveland Heep (Paul Giamatti), o zelador de um condomínio que desconfia que alguém está fazendo uso da piscina em horário inapropriado, até que, em uma bela noite, descobre que está certo. Acontece que a pessoa que movimentava sua noite com mergulhos e agitação não é uma qualquer. Trata-se de Story, personagem de Bryce Dallas Howard que entra no filme apresentando-se como uma narf, criatura aquática proveniente do Mundo Azul e que veio para o mundo humano a fim de servir de inspiração a um escritor, mas que passa a ser perseguida por seres malignos que não a deixam voltar ao seu mundo. A partir daí, Cleveland e os moradores do prédio têm que ser espertos para driblar os maléficos e fazer com que a moça esteja segura em terras desconhecidas. Uma aventura dita mitológica agita a vida de todos os personagens.

Que seja logo dito: A Dama na Água não é um filme ruim, mas não chega a ser bom. Vindo de Shyamalan, é uma grande decepção, mesmo que ele ainda domine muito bem a técnica da direção. O grande problema do filme é o seu roteiro, escrito pelas mãos do próprio diretor. Trata-se de uma trama bagunçada, confusa, sem identidade. Enfim, frustrante.

Deixando de lado todas as características que o tornaram conhecido, Shyamalan agora utiliza toques de mitologia no meio de uma história de fantasia pura. E é ai que reside um dos mais graves defeitos do longa: sendo uma história mágica declarada (na verdade, ela é baseada em uma história de ninar que o diretor contava para os filhos), Shyamalan pouco se preocupou em criar uma trama, no mínimo, convincente. O ponto de partida até que é interessante, mas quando chegamos a certo momento, percebemos que tudo não passa de uma grande embolação por parte do script. E isso se nota, principalmente, nas inúmeras reviravoltas que ocorrem durante a projeção. Boa vontade o diretor teve, só faltou uma maior preocupação.

Uma das principais características dos roteiros de Shyamalan, que consiste no desenvolvimento de vários pontos da trama, aqui se mostram um puro exercício preguiçoso. O desenrolar da trama é fraco e, conseqüentemente, o espectador nunca consegue acreditar que aquele mundo realmente exista. Fantasia é para se usar a imaginação, mas também precisa convencer.

Mas se Shyamalan comete grandes pecados como roteirista, felizmente, o contrário pode ser dito quanto à sua direção. Os planos de câmera continuam contando a favor da história, e não como um meio de dizer: “Olhem o que eu sei fazer”. O cineasta sabe, como ninguém, utilizar sua câmera ou para transmitir as emoções de certo personagem ou cena, ou também para criar bons momentos de tensão, coisa na qual ele é mestre. Os momentos de suspense continuam muito bem dirigidos, e mesmo com o roteiro pobre, essas qualidades conseguem manter nossa atenção, simplesmente por ser de Shyamalan.

A parte técnica também impressiona. Desde a direção de arte, passando pelos efeitos visuais e chegando até a fotografia, o filme apresenta um apuro técnico muito bonito. Isso sem mencionar a trilha sonora de um grande colaborador do diretor, James Newton Howard, que aqui executa um de seus mais belos trabalhos.

Paul Giamatti, que interpreta o zelador Cleveland Heep, se sai muito bem, alcançando o nível certo de carisma para nos importamos com o personagem. Não apenas o ator parece estar se divertindo, mas seus trejeitos e manias (o gaguejo) também conseguem divertir a quem assiste.

Do mesmo modo, Bryce Dallas Howard, em sua segunda parceria com o diretor, enche de sensibilidade a narf Story. Seu olhar vago e melancólico, juntamente com o trabalho de maquiagem, conseguem transmitir cada emoção da ninfa. Um trabalho notável. No resto do elenco, ainda temos nomes como Jeffrey Wright e Freddy Rodriguez, além de uma participação de grande importância de Shyamalan no filme.

A Dama na Água não pode ser classificado com outro título que não seja “decepção”. O roteiro é pífio, repetitivo, pobre, irritante e sem criatividade. Se não chega a ser ruim, é graças à mão de Shyamalan que, como diretor, ainda realiza um trabalho excelente. Mas como roteirista…

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