Ensaio Sobre a Cegueira (2008)

2 set

“Em terra de cego, quem tem olho é rei”.

Uma análise do ser humano é o que oferece esse filme de Fernando Meirelles, entre outras coisas menos importantes. Baseado na obra do grande escritor Jose Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira pode ser considerado um ensaio sobre a natureza humana.

A história é simples, mas ao mesmo tempo complexa. Simples no sentido de não haver nomes, referências ou uma geografia exata. Por outro lado, é uma trama densa, até mesmo assustadora, ao mostra a regressão do ser humano quando perde algo valioso, no caso a visão.

Tudo começa em uma cidade não identificada, onde pessoas passam a ficar cegas de repente. Sem nenhuma explicação clínica, todos vão perdendo a visão, como se fosse uma epidemia devastadora. Mas ao contrário da cegueira normal, essa é uma “cegueira branca”, como leite derramado. As tentativas iniciais do governo de conter a epidemia e manter a população calma não funcionam, mesmo depois de isolar todos os “infectados” dentro de um hospital desativado. Dentro desse hospital, conheceremos as vidas de diversos personagens, todos sem identificação, como no caso de um oftalmologista e sua esposa (Mark Ruffalo e Julianne Moore). Tal esposa é a única que consegue enxergar, mas se finge de cega para poder acompanhar o marido. Ela, como personagem central e de maior significado, guiará seu marido e um pequeno grupo de cegos no meio do caos.

As simbologias são inúmeras, e todas muito interessantes de analisar. Primeiro notamos a “desevolução” do homem diante de tal epidemia cruel, tornando-se irracional e cruel, se portando cada vez menos como gente e cada vez mais como animal. Também podemos notar a forma como alguns se aproveitaram da tragédia para se dar bem, como o personagem vivido por Gael García Bernal. Há também temas fortes envolvidos ao decorrer do filme, como sexo, mutilação, encarceramento, estupro e violação dos diretor humanos. Por trás de tudo, também se pode ver uma ácida critica aos governos humanos.

Diante de tal epidemia, presos em um precário sanatório e sem perspectiva de melhoras, todas as pessoas voltam aos instintos de sobrevivência mais básicos: comer, beber e reproduzir. A lei do “mais forte sobrevive” vigora, e o mais importante é saciar as necessidades mais naturais. Diante de tudo isso, a esposa do médico nos guiará como olhos no filme. Por meio dela veremos tudo, assim como os personagens que ela guia no decorrer da trama. Assim podemos perceber como é ser diferente de todos, o que é ser os olhos de uma multidão que não tem a visão. Podemos aplicar ao pé da letra aqui o famoso ditado “Em terra de cego, quem tem olho é rei”.

Em respeito a parte técnica, o filme está de parabéns. De muita inteligência usada por Meirelles, toda a fotografia é esbranquiçada, mostrando claramente (“claramente”?, me perdoem o trocadilho) a situação das pessoas diante da cegueira. Cidades como São Paulo e Nova York foram usadas como locação, de modo que é possível ver paisagens mais familiares para os brasileiros.

Também foi um ótimo recurso narrativo a total falta de nomeações. Não há nome para personagens, lugares, etc. Isso serve para manter o foco total na história, sem dar aos personagens uma nacionalidade, evidenciando a raça humana como um todo. E por incrível que pareça, isso não faz falta alguma para quem assiste, pelo contrário, só serve para nos manter mais atentos. Há também a presença de um narrador em alguns trechos, que poderia ser perfeitamente dispensável, mas que não interfere no desenrolar de tudo.

Interessante notar que em momento algum há algum tipo de explicação para a epidemia. É apenas um surto de cegueira inexplicável, que vem tão rápido quanto vai. Não há explicação para o fato da esposa do médico não se contaminar, mesmo em meio a tantos contaminados. O motivo disso é óbvio: a cegueira é uma analogia feita para analisar a fundo a alma humana, não foi criada para deixar o filme com um aspecto de ficção científica.

Há inúmeras cenas fortes, explícitas mesmo. Como por exemplo as cenas de um tipo de estupro em massa são até um pouco exageradas e assustadoras, já que também usam uma fotografia diferente do resto do filme, mais alaranjada e escura. A cena do incêndio também é capaz de horripilar, ao nos mostrar uma quantidade incontável de cegos desesperados em meio a chamas, sem saber para onde ir. Os momentos que mostram as pessoas lutando e até mesmo matando por comida num supermercado é igualmente avassaladora.

É um filme muito bem feito, extremamente fiel à obra de Saramago, sem tirar nem pôr. Mas não é aconselhado para os mais sensíveis, que se impressionam fácil. Capaz de nos fazer pensar, emocionar, aterrorizar e indignar, é uma obra de múltiplas facetas. De extrema criatividade e conteúdo, pode ser considerada uma das obras mais bem feitas dos últimos anos.

O toque especial de ter um diretor brasileiro no comando, além da participação da atriz Alice Braga num dos papéis principais, nos dá a perspectiva de esperar boas coisas do futuro por parte do cinema brasileiro. É esse toque brasileiro, adicionado à uma obra de autoria portuguesa, que dá a Ensaio sobre a Cegueira toda a originalidade e frescor, mesmo sendo considerado um trabalho norte americano. Essa fusão de culturas retratando uma história onde não há geografia definida, com certeza pode ser considerada um dos pontos mais altos do filme, principalmente para nós brasileiros.

2 Respostas to “Ensaio Sobre a Cegueira (2008)”

  1. Rafael Oliveira 02/09/2010 às 11:24 PM #

    Grande filme mesmo. Pertubardor e reflexivo. Grande Saramago!

  2. Roberto Queiroz 03/09/2010 às 12:20 PM #

    Não sei porque a crítica em Cannes condenou o filme na época. É brilhante e mostra de forma fiel o universo criado pelo Saramago. Extraordinário!

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