Megeras (In)domadas: Uma análise resumida das personagens mais intragáveis do cinema!

6 set

Avisem a Doris Day e a Sandra Dee para correrem! Não se esqueçam de advertir a sonhadora Sandy Olsson, de “Grease – Nos Tempos da Brilhantina” (Grease, 1978), a fugir dessa matéria, pois não sobrará uma mocinha ou heroína capaz de fazer valer o ditado “o bem vence o mal” com tantas megeras reunidas em um só artigo. Sim, será difícil dormir de noite com os pesadelos causados por essas personagens amaldiçoadas que já passaram pela história dos filmes. Apesar de todas suas maldades e capetagens, é impossível não se encantar por essas grandes mulheres, que fizeram história com suas mentes pérfidas e cheias de planos mirabolantes.

Para abrir essa matéria com classe e elegância já vou citar uma das personagens mais marcantes de todos os tempos: Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), uma anti-heroína de um dos maiores clássicos do cinema, “… E o Vento Levou” (Gone With the Wind, 1939). Apesar de ser a protagonista desse épico, Scarlett é uma tremenda megera, capaz de passar por cima de quem for para alcançar seus objetivos. Sua juventude sofrida, juntamente com o amor doentio que sente pelo atraente Ashley Wilkes (Leslie Howard), fez dela uma mulher forte e até mesmo insensível, que só achará alguém à sua altura quando conhecer o igualmente determinado Rhett Butler (Clark Gable). Num cenário de guerra civil, Scarlett consegue ser o elemento mais forte de todo o filme, fazendo de tudo para ter dinheiro e posses. Mas apesar de sua “casca” de mulher durona, essa personagem sabe ser boa e consegue encantar o espectador, tornado-se menos odiosa.

Vivien Leigh, como Scarlett O'Hara, em "...E o Vento Levou" (1939)

Outra mulher durona que só necessita de um pouquinho de atenção (e um montão de dinheiro) é Norma Desmond (Gloria Swanson), uma milionária atriz em decadência que fará de gato e sapato o roteirista Joe Gillis (William Holden) até que este termine de escrever um roteiro capaz de trazê-la de volta ao estrelato. Enquanto Gillis não realiza essa difícil tarefa, Norma se infiltrará em sua vida de tal forma que fará o roteirista beirar a loucura. Tem coisa pior que uma mulher no seu pé o dia inteiro apressando seu trabalho?

A atriz Gloria Swanson interpreta a estrela decadente Norma Desmond em "Crepúsculo dos Deuses" (1950)

Mas pior que Norma, no ramo do show business, é a inescrupulosa Eve Harrington (Anne Baxter) de “A Malvada” (All About Eve, 1950), uma terrível usurpadora que fará um inferno da vida de Margo Channing (Bette Davis). Margo é uma estrela da Broadway que contrata Eve como sua secretária, sem nem imaginar que essa moça de modos doces e agradáveis tentará de tudo para afundar sua carreira e tomar seu posto como atriz. Com seu jeitinho sonso e escorregadio, Eve tomará sem dó alguma todo o sucesso adquirido na vida de Margo, e o único que poderá detê-la é Addison DeWitt (George Sanders), um sábio crítico que saca de cara as intenções reais de Eve.

Anne Baxter, como a dissimulada Eve Harrington de "A Malvada" (1950)

Pensando bem, talvez Margo merecesse essas investidas mirabolantes de Eve, já que sua intérprete, Bette Davis, é expert em encarnar vilãs nos filmes de Hollywood. Não há como se esquecer da terrível Regina Giddens, personagem maléfica de “Pérfida” (The Little Foxes, 1941), que manipula sem dó todos os membros de sua família, abusando de seu cargo como matriarca. A safada é tão maldosa que usa sua pequena filha como artimanha na hora enganar seu marido ingênuo, adquirindo cada vez mais dinheiro e poder. Nada pior que uma mãe ou esposa dessas!

No entanto, se tratando do assunto “Vilã”, a maior profissional da atualidade é a atriz Glenn Close, que já esteve na pele de grandes megeras, das quais citarei apenas três. Em “Atração Fatal” (Fatal Attraction, 1987), Glenn interpreta a terrível Alex Forrest, o maior pesadelo de todo marido infiel. De início se portando como uma boa amante para seu colega de trabalho Dan Gallagher (Michael Douglas), Alex passa a se mostrar desequilibrada e psicótica, capaz das maiores atrocidades na hora de tentar acabar com o casamento de seu amante. Deixando Alex no chinelo, Close também foi a responsável pela composição da maior vilã da época da Revolução Francesa, a temida Marquesa de Merteuil, de “Ligações Perigosas” (Dangerous Liaisons, 1988). Entediada e rica, essa aristocrata gosta de passar seu tempo observando e manipulando as pessoas ao seu redor, usando sempre de inteligência e requinte, ao lado de seu amigo Visconde de Valmont. Juntos, esses dois desocupados bolam um intrigante plano de luxúria e pecados envolvendo a mais alta corte. Igualmente cruel e impetuosa é Cruela De Vil, a vilã da obra infantil “101 Dálmatas – O Filme” (101 Dalmatians, 1996), que tem como maior objetivo arrancar a pele de adoráveis cachorrinhos com o objetivo de fazer um ostensivo casaco de pele. Ou seja, uma grande violadora do direito dos animais, que com certeza assustará em especial o público infantil.

As megeras de Glenn Close. Como Alex Forrester em "Atração Fatal (1987)", Marquesa Isabelle de Merteuil em "Ligações Perigosas" (1988) e como Cruella de Vil em "102 Dálmatas (2000)".

E o que fazer quando nossa vilã é de outro mundo?! Nada como uma aberração sobrenatural para espantar qualquer cético no assunto, como é o caso da vingativa Carrie White (Sissy Spacek), a adolescente reprimida de “Carrie – A Estranha” (Carrie, 1976), que usará de todas suas habilidades paranormais para retribuir as chacotas vindas de seus colegas de escola. Para tais colegas só resta rezar para Deus, pois não há nada a fazer diante de uma criaturinha tão vingativa e poderosa.

Igualmente medonhas são aquelas que possuem grande desequilíbrio mental, verdadeiras assassinas descontroladas. Se você for um escritor feliz com algum sucesso literário de sua autoria, tenha cuidado com a perigosa Annie Wilkes (Kathy Bates), que deixou sua obsessão tomar conta de seu corpo ao sequestrar seu escritor favorito em “Louca Obsessão” (Misery, 1990). As atrocidades cometidas por essa verdadeira insana levam sua vítima ao extremo da loucura e da dor, apenas com o intuito de obrigá-lo a mudar o final de seu último livro. Mas se você não é um escritor e não se preocupa com esse tipo de gente, é preciso atenção também com as “profissionais da noite”, prostitutas infelizes com suas vidas imorais que resolvem descontar a raiva em você. Esse é o caso real de Aileen (Charlize Theron), uma monstrenga serial killer que não poupa nenhum de seus clientes no filme “Monster – Desejo Assassino” (Monster, 2003). Depois de realizar todos os pedidos de seus fregueses, Aileen simplesmente os mata sem nenhuma piedade.

Tanto Kathy Bates quanto Charlize Theron foram premiadas com o Oscar por suas respectivas interpretações nos filmes "Louca Obsessão (1990)" e "Monster - Desejo Assassino (2003)".

Não são apenas as profissionais desse “ramo” que são perigosas, se é isso que você está pensando. Até as mais inocentes das profissões podem trazer profissionais um tanto perigosas, como no caso das babás. Como confiar em alguém os cuidados de seus filhos? Claire Bartel (Annabella Sciorra) não foi prudente ao confiar na bela babá Peyton Flanders (Rebecca De Mornay), no assustador “A Mão Que Balança o Berço” (The Hand that Rocks the Cradle, 1992). A doida da babá, na verdade, só tinha a intenção de acabar com Claire e roubar sua família, virando todos contra a matriarca. No entanto, essa obrigatoriedade de proteger seus filhos pode ser uma via de mão dupla, já que muitas vezes a própria filha pode ser o grande problema. Em “A Órfã” (The Orphan, 2009), o casal Coleman passa por poucas e boas depois de decidir adotar da aparentemente adorável Esther (Isabelle Fuhrman), uma menininha endiabrada que tem como objetivo matar todos os membros daquela família, independente de sua idade ou tamanho.

A menina Esther (Isabelle Fuhrman), de "A Órfã" (2009).

Mas o que fazer quando as megeras surgem em nosso próprio meio de trabalho? Pior, quando temos de acatar ordens delas? Andy Sachs (Anne Hathaway) sentiu na pele o que é ter uma chefe mala no filme “O Diabo Veste Prada” (The Devil Wears Prada, 2006), onde tem de se submeter à pior megera do ramo jornalístico, a poderosa Miranda Priestly (Meryl Streep). Arrogante e impiedosa, Miranda não aceita nada que seja menor do que perfeito entre seus funcionários, exigindo de Andy uma devoção quase exclusiva, deixando a moça praticamente doida de tanto trabalhar. Andrew Paxton (Ryan Reynolds), personagem do filme “A Proposta” (The Proposal, 2009), também teve de enfrentar uma chefe insuportável, Margaret Tate (Sandra Bullock), quando esta lhe propõe casamento em troca de uma promoção atrativa.

Meryl Streep viver a intragável Miranda Preasley em "O Diabo Veste Prada (2006)".

Dentro de casa, para aqueles que pensam que estão livres dessas megeras, também pode haver perigo. Afinal, ninguém quer uma mãe inoportuna e intrometida, como é o caso de Tutti Bomowski (Estelle Getty), uma velhinha ativa que só sabe atrapalhar seu filho policial em “Pare! Se Não Mamãe Atira” (Stop! Our My Mom Will Shoot, 1992). As irmãs mais velhas também podem ser grande fonte de irritação, como no caso da invejosa Jeanie Bueller (Jennifer Grey), que é um verdadeiro empecilho na vida boemia de Ferris, em “Curtindo a Vida Adoidado” (Ferris Bueller’s Day Off, 1986). Ex-esposas também podem dar boas dores de cabeça, principalmente na divisão de bens, tendo como exemplo a ambiciosa Marilyn Rexroth (Catherine Zeta-Jones) em “O Amor Custa Caro” (Intolerable Cruelty, 2003). E, acima de tudo no que diz respeito à família, sempre existirão as terríveis sogras, verdadeiras megeras que nunca trazem nada de bom, o que nos faz lembrar de Viola Fields (Jane Fonda), em “A Sogra” (Monster-in-Law, 2005).

Jane Fonda infernizou a vida da nora Jennifer Lopez em "A Sogra (2005)".

Seja como for: dentro de casa, no trabalho, entre amigos ou até em família, sempre há uma megera a assombrar nossos heróis e heroínas na maioria dos filmes.  A grande verdade é que, apesar de serem tão malditas para nossos protagonistas, causam verdadeiro deleite ao espectador. Ver grandes atrizes na pele de grandes vilãs sempre causa reações positivas em cada um de nós. Nem precisam ser necessariamente vilãs, desde que sejam chatas, irritantes, fofoqueiras, etc. Por piores que sejam, são essas mulheres que dão tempero aos filmes, trazendo grandes momentos à memória do cinema. Nessa análise ficaram muitas de fora, assim como ainda virão novas megeras a nos atormentar com o passar do tempo, mas a faço como forma de representar todas essas personagens no geral.

Antipáticas ou simpáticas, más ou boas, legais ou chatas, belas ou horrorosas, uma coisa todas tem em comum: são mulheres. E são essas mulheres fortes que fazem do cinema um entretenimento tão delicioso e saudável. Capazes de nos fazer ir do riso ao choro em questão de minutos (até segundos), são essas personalidades que entram na memória e nunca mais saem, acrescentando muito ao cinema e muito a cada um de nós, que tem o privilégio de vê-las em ação sempre que der vontade.

3 Respostas to “Megeras (In)domadas: Uma análise resumida das personagens mais intragáveis do cinema!”

  1. Victor Tanaka 06/09/2010 às 8:24 PM #

    Adorei. Acho que foi, pelo menos, o artigo com o melhor tema que já li. Vilãs femininas são o que há. *-*

  2. Rafael Oliveira 06/09/2010 às 8:26 PM #

    Grande matéria mesmo. Também adorei. (Ainda preciso ver Louca Obssessão, parece ser do babado).

  3. Victor Tanaka 16/10/2010 às 1:13 AM #

    Depois de ver Louca Obsessão, fiquei com medo de Kathy Bates. Ela é mais piscopata que eu.

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