Pleasantville – A Vida em Preto e Branco (1998)

6 set

O que você faria se mudasse de canal e começasse a ver um garoto brigando com a irmã por um controle remoto pelos motivos mais fúteis do mundo? Não sei você, mas eu mudaria de canal. Chega de confusões e peripécias gigantescas onde pessoas trocam de sexo por uma noite ou vão para o mundo das fadas aprender lições,eu mudaria de canal mesmo, mas dessa vez decidi não mudar, decidi ficar deitado no sofá e ver até aonde aquilo me levaria. Um início muito enjoado, porém necessário, que eu só perceberia com o decorrer de todo o filme. E este, após encerrado e com os créditos aparecendo na tela, se revela perfeito!

O plot é simples. Após o “cara” da manutenção da TV entregar um “controle” mágico para dois irmãos briguentos, eles acabam entrando na telinha e começam a fazer parte de uma série televisiva dos anos 50. Lá, percebem que tudo está errado (mesmo estando certo de mais), e começam a transformar tudo na cidade,da cor das pessoas aos valores mais moralistas de lá.

Se o plot é simples, o desenvolvimento passa longe disso. É algo complexo, que mesmo assim é levado com leveza e simplicidade pelo diretor Gary Ross, que consegue filmar uma obra-prima sem parecer pretencioso.

Após perceberem que estão em uma cidade fictícia dos anos 50, os irmãos David (Tobey Maguire) e Jennifer (Reese Witherspoon) descobrem que não podem sair e que terão que conviver com tudo aquilo de forma natural, para que nada vire o caos. Mas Jennifer não consegue seguir as “instruções” do moço do controle e começa uma mudança que culminará na modificação total de um círculo fechado e “dormido” até esse momento. Jennifer começa a modificação na medida em que apresenta o sexo para um dos moradores da cidade, o capitão do time de basquete, que mesmo sendo bonitão, sente vergonha ao pegar na mão da “moça” em momentos inapropriados, como em público. Após apresentar o sexo o caos começa, mas este é necessário para que toda uma vida real se construa. Adão e Eva só saíram do paraíso após comerem do fruto proibido, mais conhecido como sexo. Após eles saírem do paraíso, quebraram barreiras inimagináveis e construíram toda a humanidade. A quebra da perfeição era necessária para que todos nós um dia nascêssemos. Do contrário, o mundo continuaria sendo perfeito e Adão e Eva morreriam de tédio em um mesmo lugar onde tudo é sempre igual e mudanças nunca são bem vindas. Isso pode ser descrito também como o velho mito da caverna, ou o “sono contínuo” que a grande massa sempre tem. No filme, o catalisador, o puxador ou a pessoa que acorda acaba sendo Jennifer, a mulher, como Eva, e como ela, também inicia o rito por meio do sexo.

A partir da iniciação, a cidade inteira começa a mudar, e algumas pessoas começam a ficar coloridas, em um mundo preto e branco. O que não mencionei, é que Jennifer pode ter começado a tudo, mas é David o nosso herói, é ele quem tem que salvar a cidade, acordar todo mundo. Ele seria o Neo na Matrix, o salvador, e como todo bom e velho herói,este não aceita de primeira mão o seu cargo e entra em negação. No caso de David, a negação é tamanha que ele chega a ajudar a manter a “perfeição” aparente da cidade e tenta convencer sua irmã a fazer o mesmo. Só que como todo bom e velho herói, ele está predestinado e todos os seus atos acabam sendo, mesmo que não propositalmente, um ato bom para que tudo permaneça se quebrando e indo rumo ao caos total. E como não citei anteriormente, David, praticamente ao mesmo tempo que a irmã,estava libertando alguém de sua existência vazia e apagada,apenas falando que ele podia colocar o alface por cima do X-Burger. E daí, nosso herói ou cavaleiro ganha seu primeiro e mais fiel escudeiro: Bill Johnson, o dono do “point” da cidade. Só que Bill não é apenas “o escudeiro”, ele é também o artista, o homem vivo e mais emocionado, o homem que sente mais,ou melhor, o homem que sabe expressar melhor o que sente do que os demais, o homem que catalisa suas vibrações emocionais em cores,formas e expressões. E Bill é muito importante para que o caos se estenda e tome conta de tudo, o que a determinado momento passa a ser inevitável. Percebam que praticamente no mesmo instante que Jennifer fazia sexo com o capitão do time de basquete, David ensinava sobre a Alface. Como Adão e Eva, ambos precisavam catalisar o caos juntos, se não, não causaria efeito em ninguém e tudo continuaria em duas cores.

Com o passar do tempo, alguns jovens começam a se libertar da sociedade hiper moralista que tem casais dormindo em camas separadas e que não sabem o que sexo é. Uma mostra de como o inconsciente é poderoso e como este domina a pessoas leigas e sem vontade de conhecimento. Se os pais dos meninos não sabem o que é sexo, como os tais meninos nasceram? Obra de Deus? E mais uma serie de questionamentos que deveriam ser levantados, tanto pelos filhos dos cidadãos, quanto pelos próprios. Mas isso só chega a tona quando a mãe fictícia de David e Jennifer,questiona para esta o que é sexo, e então o caos só se dissolve por meio de curiosidades e afastamentos morais momentâneos ou não. E num ritmo tranquilo e solto o filme vai se montando para seu objetivo final: o caos total. E a ordem tenta prevalecer sobre o caos, ainda mais quando este se apodera de tudo. A chuva chega como divisor de águas (literal) e de cores, deixando de um lado pessoas coloridas e, do outro, pessoas preto e branco. Um apartheid toma conta da cidade, e tanto a arte, como as cores e a felicidade são banidas dali, e um ditador ganha cada vez mais espaço e seguidores, conforme estes concordem com sua visão moralista e fascista de mundo. E essas pessoas, em sua maioria, são mostradas no filme como pessoas idosas,adolescentes confusos e como seus lideres, políticos. E de forma não muito complexa e de forma alguma confusa, o diretor apresenta um ponto de vista rico e esclarecedor de como a política num mundo caótico busca uma falsa ordem para se manter viva, quando nem a mesma acredita em tal ordem. O mesmo vai para a igreja e todas as outras instituições que descambam para o niilismo e se tornam cada vez mais vazias,a medida que o sono se torna cada vez mais prolongado.

E chega a vez do nosso heróis se firmar por inteiro. A hora em que ele sai do anonimato e tem que mostrar a que veio. O momento de tensão e diferenciação para muitas pessoas, o impacto, o acordar por inteiro. E com um pequeno movimento e pouquíssimas pessoas (só as coloridas) David apresenta a cidade uma pintura expressionista fatal que leva ele e Bill a cadeia da cidade para inaugurarem o primeiro julgamento dali. O culme do Caos é o julgamento, a justiça cega que tem que enxergar cores para perceber que não passa de uma farsa, e simplesmente com emoção, David, o Herói vence o julgamento e banha a cidade com o caos completo, onde o preto e branco é substituído por cores e a felicidade é acrescida de tragédia,problemas,derrotas,medos,raiva,orgulho,fome,dor,desordem,arte,filosofia,paixão,amor e todos os tipos de sentimentos de que homem precisa para que seja imperfeito e viva feliz com sua imperfeição,que viva em paz em saber que não é perfeito e que tenha plena consciência de que a perfeição é um saco,e nunca daria certo em lugar nenhum!

Mas o nosso herói como todo outro tinha uma missão, e a cumpriu de forma perfeita, houve sacrifícios (perdeu a irmã,mas por uma boa causa) e ainda conseguiu perceber que tudo aquilo que viveu na cidade fictícia não passou de uma experiência necessária para sua vida, para que este ficasse completo, para q este encarasse sua cidade real com muito mais amor e atenção que dava, ou que não dava. Sua irmã decidiu ficar mais, sua hora ainda não tinha chegado, ele estava pronto para ir embora e retornar a sua casa. Ao regressar, já da logo de cara com a mãe, solitária e posta em lágrimas, agora, com toda sua experiência de uma vida,um simples gesto deixa sua mãe em pleno conforto e o torna mais sábio e inteligente. Com um carinha que foi apenas consertar um controle e que sorri para nós que o estamos assistindo, uma risada irônica e satisfeita que se traduz em uma única frase: aqui, chegamos a perfeição!

2 Respostas to “Pleasantville – A Vida em Preto e Branco (1998)”

  1. gabriel 06/09/2010 às 6:54 PM #

    poxa cara eu gostei da crítica, mas vc acabou contando o fim do filme.. por esse motivo, por mais que esteja 5 * n vou ver…
    toma cuidado com isso

  2. Élisson 31/10/2011 às 5:23 AM #

    Perfeito, eu já havia assistido a Pleasantville e antes eu li a Alegoria da Caverna, de Platão. Então pra mim foi uma experiência incrível! Parabéns pela ótima análise descritiva.

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