Entrevista com o Vampiro (1994)

11 set

Esqueça os filminhos da saga Crepúsculo, esqueça as sequências da cine-série Anjos da Noite, esqueça a literatura atual sobre o tema. Sobre o assunto “vampiro”, são poucos filmes e livros que realmente valem a pena. Entrevista com o Vampiro, do diretor Neil Jordan, merece destaque em meio a tanta mesmice. Baseado na obra da expert em vampiros Anne Rice, esse filme é digno de nota por uma simples razão: o que importa no filme são de fato os vampiros. Apesar de outros elementos serem usados na trama, como romance e certa dose de erotismo, o vampirismo é o assunto central e de maior importância do começo ao fim.

O enredo é simples, mostrando uma entrevista de um corajoso jornalista com um vampiro. Nessa história contada pelo vampiro Louis (Brad Pitt), conheceremos sua vida depois de conhecer o lendário e temido vampiro Lestat (Tom Cruise). Lestat é um rico aristocrata do século XVIII, entediado com sua vida solitária e afastada dos outros vampiros, quando decide “morder” alguém para lhe fazer companhia e para ensinar tudo o que sabe sobre a vida vampiresca. O escolhido é, obviamente, Louis. No entanto, Louis é “bonzinho” demais para tal vida assassina, deixando Lestat sempre irritado e frustrado. O relacionamento frágil entre os dois se complica mais ainda quando surge a pequena Claudia (Kirsten Dunst) na história, que é transformada em vampira e passa a viver com os dois.

A história é bem seletiva no que mostra. Alguns elementos clássicos das histórias de vampiros ficaram de fora, como a aversão ao alho, o fato deles não terem reflexos nos espelho, dormirem em caixões empoeirados e se transformarem em morcegos. Todos esses elementos mais caricatos foram inteligentemente deixados de fora para dar mais realismo à obra. Por outro lado, os elementos mais importantes foram mantidos, como os caninos afiados e a fome de sangue, além da imortalidade e costumeira sensualidade. Em meio a tantos elementos bem utilizados, nos deparamos com uma forte e bem sucedida mistura de drama e terror.

Os personagens são o grande destaque. Cuidadosamente construídos, cada um mostra uma personalidade curiosa. Louis é de surpreendente bondade, mas ao mesmo tempo se mostra melancólico e desestimulado. A vampira Claudia é digna de nota, principalmente à medida que o tempo passa na história, já que sua mente cresce, mas seu corpo permanece eternamente como o de uma menina de nove anos. Sendo assim, Claudia desenvolve desejos naturais de mulher, como atração sexual pelo sexo oposto, mas não é encarada como uma, tornando-se revoltada e violenta. Lestat é o maior destaque, trazendo os clássicos traços de personalidade vampiresca, como a inteligência, beleza, sedução, elegância e, claro, a maldade. Outro personagem bem elaborado foi Armand, interpretado com toda a atenção por Antonio Banderas.

O filme também significou muito na carreira da maioria dos envolvidos. Kirsten Dunst encarava um de seus primeiros trabalhos, ganhando um grande destaque por sua atuação cativante. Essa atuação provavelmente foi o grande motivo dela ter chegado aonde chegou, pois deu a ela a oportunidade de ser “vista” em Hollywood. Antonio Banderas se aventurava, ainda meio tímido, pelos filmes norte americanos, depois de ser reconhecido por seus trabalhos na Espanha. O papel de destaque foi uma grande oportunidade para o ator entrar de vez em Hollywood. Para Brad Pitt, que encarou o personagem principal, foi uma chance de fugir dos papéis convencionais que lhe cercavam, dando-lhe a tão procurada oportunidade de mostrar seu talento além de sua beleza.Tom Cruise, no meio de todos, foi o que mais se deu bem na produção, já que Anne Rice não aceitou sua escalação para o papel de Lestat, mostrando-se bem contrariada quando ele foi confirmado para o elenco. Sua atuação memorável serviu de “cala a boca” para todos os que não botaram fé em seu talento, e a própria Anne Rice teve de reconhecer sua grande atuação.

Uma análise sobre o ser humano cabe como mensagem por detrás da história. Todas as vontades e inseguranças do homem são retratadas por meio dos vampiros, que nesse filme tem sentimentos e ansiedades como qualquer mero mortal. Medo da morte, do envelhecimento e de ser diferente são muito bem mostrados. Lestat representa tudo que o ser humano deseja de forma inconsciente, como a vida e a beleza eterna. Já Louis retrata as inseguranças e incertezas que o futuro nos reserva, além de mostrar um lado depressivo muito comum hoje em dia nas pessoas. De forma magistral, Jordan usa o vampirismo para retratar o humanismo.

O tema “vampiro” é algo que gera curiosidade e atração para todos, inclusive os diretores de Hollywood. Só a respeito do personagem mais famoso do meio vampiresco, Drácula, já foram feitas inúmeras produções, com destaque para Drácula (Dracula, 1931) e Drácula de Bram Stoker (Dracula, 1992), do grande Francis Ford Coppola. Ultimamente os vampiros tem sido usados para chamar a atenção ao romance bobinho dos filmes adolescentes, como no caso do já mencionado Crepúsculo (Twilight, 2008). Infelizmente, desde Entrevista com Vampiro, nenhum filme do gênero foi tão bem executado. Nenhum usou de originalidade, escuridão e inteligência que o gênero permite. Sendo assim, cada vez somos mais bombardeados por medíocres produções, como as continuações da saga de Stephenie Meyer.

Por essa e outras que “Entrevista com o Vampiro” merece reconhecimento. Desde sua maquiagem impecável, passando por uma bela fotografia e um roteiro afiado, o filme comete minúsculos deslizes, que nem merecem atenção. As indicações ao Oscar de melhor direção de arte e melhor trilha sonora só servem para fechar com chave de ouro a beleza do filme. Neil Jordan se mostrou um talentoso diretor, depois de já ter provado seu talento como roteirista ao ganhar o Oscar por Traídos pelo Desejo (The Crying Game, 1992).

Entrevista com o Vampiro proporciona, entre outras coisas, uma real e emocionante história de vampiro, deixando de lado as baboseiras usadas em outros filmes. Sendo assim é um dos filmes mais recomendados do gênero, por saber trazer em doses equilibradas a fórmula certa para matar a “sede de sangue” do espectador.

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