Veludo Azul (1986)

18 set

“She wore blue velvet…”

Assistir Veludo Azul proporciona tantos estímulos sensoriais como somente uma obra assinada por David Lynch poderia fazer. Forte e ao mesmo tempo poético, feroz e ao mesmo tempo tocante, repleto de significados e entendimentos. Mas se tratando do diretor, tais entendimentos e significados não fazem jus ao comum da sociedade, mas servem como uma forma de enxergá-la por outro prisma. Cada personagem e cada cenário, juntamente com todos os diálogos verdadeiros e por vezes perturbadores, compõem uma obra-prima de valor incalculável, capaz de mexer em lugares de nossas emoções que quase nenhum outro filme consegue alcançar.

O enredo é bastante diferente do comum (assim como todo o enredo dos filmes de Lynch). Nele conheceremos o rapaz Jeffrey Beaumont, morador de uma cidadezinha do interior americano, tipicamente suburbana. Por baixo dessa camada feliz e irritantemente perfeita, se esconde um submundo de violência e vergonha, repleto de todo o tipo de insanidade. Depois de se envolver numa possível trama de assassinato com a jovem e inocente Sandy, Jeffrey conhecerá o mundo obscuro de uma cantora de cabaré, Dorothy Vallens. Essa mulher sensual e misteriosa mantém uma relação sadomasoquista e inexplicável com o psicopata Frank Booth. Por trás dessa relação atípica, se escondem segredos do mundo das drogas, que somente Jeffrey poderá solucionar, tentando ao máximo não se deixar seduzir pela beleza e erotismo de Dorothy.

Um dos pontos altos do filme é o contraste que Lynch estabelece entre a perfeição e a loucura. De uma forma enlouquecedora, o diretor nos mostra o lado positivo e negativo de ambas. Sim, apesar de parecer uma sátira à sociedade perfeita americana, Veludo Azul também mostra o lado bom dela, sem apelar para política ou sonhos impossíveis (a cena em que Sandy revela seu sonho a Jeffrey exemplifica bem os pensamentos do diretor em relação à paz e à serenidade daquele tipo de vida). Da mesma forma, ele nos mostra como a loucura e a violência podem ser tanto boas quanto ruins, e a única forma que ele achou para expor isso foi através de seu roteiro avesso aos lugares comuns. As cenas protagonizadas por Isabella Rossellini e Dennis Hopper são fantásticas, tão bem feitas que toda aquela insanidade consegue parecer atraente e ao mesmo tempo repulsiva.

Deixando o roteiro espetacular um pouco de lado, é preciso muita atenção na trilha sonora. Sua função nesse filme não é apenas embalar a trama num ritmo agradável, mas serve como forma de narrar os sentimentos de alguns personagens. Veludo Azul, para quem não conhece, é na verdade uma canção de Bobby Vinton, que ganha vida na voz de Isabella Rossellini neste filme. Sua tradução é bastante profunda quando relacionada ao contexto do filme, sendo responsável na hora de criar mistério em volta do personagem de Hopper, que se emociona toda vez que a ouve. Outras musicas como “In Dreams” e “Love Letters” também exercem essa função na trama, mas com menos destaque da que dá título ao filme.

Os personagens também são outro triunfo à parte. Talvez seja Frank Booth o personagem mais marcante de Dennis Hopper, além se ser um dos vilões mais ímpares do cinema, principalmente com sua mania de torturar enquanto usa uma máscara de oxigênio, sentindo sofregamente a textura do veludo azul da roupa de Dorothy. Rossellini também encara uma de suas personagens mais notáveis, mostrando coragem ao protagonizar cenas fortíssimas de tortura e de nudez. Laura Dern também não decepciona na pele da adorável Sandy, sabendo compor uma mocinha sem deixá-la com um ar patético ou inútil. Kyle MacLachlan vive o seu primeiro protagonista, mostrando competência ao não se deixar ofuscar pelos personagens intrigantes de Rossellini e Hopper.

Com uma equipe tão competente de diretor e elenco, além de uma trilha sonora essencial, Veludo Azul pode ser considerado um dos mais poderosos filmes da carreira de Lynch, sendo o trabalho usado pelo diretor para provar que vinha para ficar, mesmo depois do fracasso comercial de Duna (Dune, 1984). Junto com O Homem Elefante (The Elephant Man, 1980) e Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001), Veludo azul fecha a trinca de ases dos filmes mais importantes da carreira de grande mestre do cinema, uma verdadeira fábrica de obras-primas.

“And I still can see the blue velvet through my tears”

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