Dogville (2003)

27 set

Lars Von Trier é um cineasta altamente controverso, desde que apresentou ao mundo seu primeiro filme. Ele certamente é daqueles profissionais que se enquadram no rol dos realizadores, que são muito mais do que diretores. A obra de Von Trier é autoral e provocativa, abrindo espaço para o desenvolvimento de uma consciência crítica por parte do espectador. Dogville é mais um atestado dessa capacidade de inquietar tão inerente à filmografia do dinamarquês.O que se tem aqui é um flagrante do quanto o homem pode ser cruel quando seus interesses estão em jogo.

Nos anos 30, Grace (Nicole Kidman) é uma mulher misteriosa que está fugindo da perseguição de gângsters. Os EUA acabaram de mergulhar na Grande Depressão, o que gerou perdas irreparáveis em todo o país. Grace consegue encontrar um lugar que parece ser seu refúgio perfeito. O lugar se chama Dogville. A chegada dessa intrusa causa desconfiança na população local, mas logo Tom (Paul Bettany), um dos moradores da cidade, consegue interceder junto aos habitantes por Grace, e eles concordam em abrigá-la ali.

Mas há uma troca entre Grace e os moradores de Dogville. A população a protege, mas ela terá de prestar pequenos favores para todos. Não fica claro, nem mesmo para o espectador, se Grace tem ou não alguma culpa no cartório para estar sofrendo perseguição. Mas logo a personagem ganha a empatia do público, que acompanha sua saga.

São muitos os trunfos de “Dogville”. Talvez o maior deles seja sua estrutura teatralizada. É uma proposta radical, mas os cenários do filme não “existem”, são apenas sugeridos. O filme foi rodado inteiramente em um galpão na Suécia, e todos os elementos necessários para as cenas são mencionados, e não vistos. Essa peculiaridade do filme exige que se eleve a um alto grau a suspensão da descrença, para que o espectador entre, de fato, na atmosfera particular da cidadezinha. Só se sabe que há um cachorro na cena, por exemplo, porque aparece a palavra “dog” escrita no chão. Das portas das casas dos moradores se ouve apenas o barulho. Com esse longa, Von Trier demonstra não levar mais a sério as regras do Dogma 95, manifesto do qual ele é signatário, como seu contarrâneo Thomas Vintemberg. Uma das premissas desse movimento era a recusa em se utilizar cenários, coisa que Von Trier faz o tempo todo em “Dogville”.

Mas isso são pequenezas diante do cinema exemplar que o cineasta nos oferece com esse filme. Aos poucos, Grace começa a ser explorada para além do que estava previsto inicialmente no acordo entre ela e os habitantes de “Dogville”. A ameaça dos gângsters também fica cada vez mais próxima. Grace começa a notar que o que parecia uma relação de mutualismo se transformou em franca exploração.

Dogville é o primeiro filme de uma trilogia idealizada por Von Trier, intitulada “EUA – Terra das oportunidades”. Sua intenção com essa obra é declaradamente desconstruir a imagem que se tem da Terra do Tio Sam, mostrando a vileza dos moradores de Dogville, que se aproveitam da situação de dependência de Grace para humilhá-la. Entretanto, a narrativa serve para falar do homem de uma maneira universal. “Dogville” se mostra como uma alegoria sobre o instinto de maldade latente no homem, que é apenas disfarçado pelas convenções sociais, mas nunca totalmente extirpado de nossos interiores.

Todo o elenco apresenta um excelente rendimento, e são muitas as sequências inspiradas dessa obra magnífica. A história é contada em capítulos, com direito a um prólogo e um epílogo, que trazem vistas superiores da cidade fictícia. Além disso, há um narrador que tece comentários a respeito das ações que transcorrem no filme, algumas vezes de forma irônica. De qualquer modo, todo julgamento cabe ao espectador. Apesar de toda a mordácia com que o cineasta critica o capitalismo e desmonta algumas convicções sobre o ser humano, o juízo de valor é absolutamente particular.

Uma resposta to “Dogville (2003)”

  1. Renan Marino 30/09/2010 às 12:17 AM #

    Tenho dúvidas se gosto mais desse ou de Dançando no Escuro… Uma pena que Nicole Kidman já não é mais o que era antes.

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