Psicose (1960)

30 set

Existem suspenses e suspenses, uns bons outros ruins. Uns assustam, outros apavoram, alguns nem chegam a causar nem sequer um vestígio de medo. Independente de suas diferenças, todos os filmes de suspense devem agradecer a existência de Psicose, pois foi este que causou uma das maiores reviravoltas do gênero. Diferente de tudo feito até então essa obra se mostrou o ápice da carreira de Hitchcock, e isso significa muita coisa se tratando de um dos maiores diretores de todos os tempos.

Psicose possui todos os elementos de um suspense refinado e bem sucedido, como somente Hitchcock poderia fazer. No entanto, há dois elementos que me chamaram mais atenção e que tornam o filme simplesmente irresistível: o suspense de caráter psicológico e o vilão. Numa trama enlouquecedora, esses dois elementos criam uma atmosfera de pânico puro, em que fica impossível não sentir seus pêlos de todo o corpo arrepiarem. Nunca antes foi analisada tão a fundo a inteligência emocional dos personagens de um filme, sendo esse recurso um dos grandes responsáveis na construção de uma trama doentia e cativante. A ousadia do diretor em quebrar tantas barreiras elevou esse trabalho a um patamar diferenciado de todos os outros trabalhos feitos na época, e até hoje Psicose se mantém como um capítulo à parte na história do cinema, assim como seu realizador.

A premissa é surpreendentemente simples, onde conhecemos Marion Crane, uma funcionária de uma imobiliária que decide dar um golpe no patrão e fugir de tudo e de todos. Depois de escapar com a grana, Marion se refugia num hotelzinho afastado das rodovias e de aspecto misterioso. Começa então uma jornada de terror e agonia, onde presenciamos uma das maiores cenas já feitas no cinema (nem preciso dizer que se trata da “cena do chuveiro”).

A atmosfera criada por Hitchcock nos prende desde o início do filme, mesmo antes do suspense começar pra valer. A trilha sonora sublime se encarrega na hora de criar um clima de constante tensão e medo, mesmo que não haja motivo para medo nos primeiros minutos. É como se a trilha sonora fosse um personagem concreto que nos avisa do que está por vir, e isso vai causando um frenesi tão grande que quando o terror aparece de verdade nós já nos encontramos num estado terrível de agonia. A fotografia em preto-e-branco é outra ideia usada pelo diretor na hora de sumir com o colorido das paisagens, de forma que tudo se torna mais sombrio e claustrofóbico. Na verdade, a iluminação precária e o preto-e-branco foram recursos usados pelo diretor para deixar o filme com ar de produção barata, acentuando mais ainda o terror.

Podemos dividir Psicose em dois momentos, como se fosse dois filmes. A primeira meia hora é praticamente nula em diálogos, rica em close-ups, e se foca inteiramente no perfil psicológico de Marion Crane. Muito eficaz na hora de desenvolver a trama numa verdadeira tortura para nossa protagonista, o roteiro foi o grande responsável também na hora de nos ajudar a entender todos os conflitos emocionais de Marion. Mas então a vida dela se cruza com a de Norman Bates, o esquisito dono do hotelzinho. O roteiro passa então a mudar de foco, de modo que tanto nós como a protagonistas passamos a exercitar o voyeurismo no que diz respeito às esquisitices cometidas por Bates. Então somos conduzidos até o momento mais sanguinário do filme, onde ocorre o famoso assassinato no chuveiro. Alguns minutos depois desse momento começa então o “segundo ato” da história, onde seremos guiados por uma nova protagonista e por novos personagens, sendo Norman Bates o único personagem em comum entre os dois atos. Essa segunda metade é mais movimentada e contém maior quantidade de diálogos, deixando o horror um pouco de lado para iniciar uma trama de investigação implacável. O terror voltará com força total nos momentos finais do filme, mas deixará o suspense como seu aliado enquanto estiver fora.

Nessa história toda, o personagem de maior destaque (como acontece em praticamente todos os filmes do gênero) é o vilão. Norman Bates é um dos antagonistas mais psicóticos e doentios de toda a história do cinema, exemplificando diversos tipos de insanidade em uma só pessoa. O título do filme, Psicose, não poderia ser mais apropriado em vista da terrível instabilidade mental de nosso vilão. Apesar de aparecer pouco em cenas violentas, Bates sabe causar um medo fora do sério apenas com sua presença mórbida e funesta. Hoje em dia ele é o segundo maior vilão do cinema segundo o American Film Institute, ficando apenas atrás do Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) de O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1991).

Toda essa abordagem psicótica fez desse filme um dos maiores de sua época, sendo indicado ao Oscar de Melhor Direção. Infelizmente acabou perdendo a estatueta para Se Meu Apartamento Falasse (The Apartament, 1960), já que os críticos da época o consideraram “doentio demais”. Esse foi um grande golpe para Alfred Hitchcock, que fez questão de mostrar até o fim de sua vida todo o desgosto de nunca ter levado um Oscar pela Academia.

Um dos motivos de Psicose ter sido tão arrebatador, além de suas abordagens psicanalíticas, foi a forma como o filme utilizou de outros temas fortes e pouco abordados até então. Sua abordagem sobre sexo, por exemplo, foi escandalosamente inovadora, mostrando sem preconceitos a vida sexual duvidosa da protagonista, além de expor a atração sexual doentia que Bates sente por Marion. Dessa forma, Psicose foi um filme deliciosamente inovador, misturando a tensão psicológica com a expressão sexual da protagonista numa fórmula certeira. Depois de 20 anos, Brian De Palma criou um filme com praticamente os mesmos elementos, Vestida para Matar (Dressed to Kill, 1980), mas sem tanto sucesso artístico, apesar de ser um filme bastante interessante.

O sucesso alcançado por esse filme foi astronômico, de forma que muitas continuações vieram desde então, além de infindáveis imitações (inclusive um medonho remake em 1998). Mas nenhum filme conseguiu misturar tão bem os elementos de medo usados em Psicose. Somente a mente criativa e, de certa forma, doentia de Hitchcock poderia ser responsável por uma obra-prima tão exata e cativante. Apesar de já ser considerado um clássico antigo, podemos dizer que é um filme que até hoje consegue ser assustador sem apelar para as cafonices dos terrores antigos. Mesmo sendo tão sofisticado e cheio de idéias originais, Psicose também soube usar dos mais clássicos elementos causadores de medo, como é o caso da mansão gótica habitada por Norman Bates. Essa mistura de originalidade com tradição resultou num filme de suspense/terror impecável.

Sabendo como mexer com o nosso psicológico como ninguém, Hitchcock criou um filme de primeira qualidade, que sabe como nos atingir de formas diferentes a cada nova cena que se passa. Sendo assim, ficamos grudados na tela durante toda sua duração, até chegarmos na cataclísmica cena final, lotada de verborragia e insanamente sedutora.

5 Respostas to “Psicose (1960)”

  1. Renan Marino 01/10/2010 às 1:28 AM #

    É a obra-prima do Hitchcock, sem dúvida nenhuma.

  2. Patrick 01/10/2010 às 6:19 PM #

    “Psicose” é mesmo um filme irretocável sobre o medo e o desespero crescentes.
    Parabéns pela crítica, Heitor.

    • heitoromero 01/10/2010 às 6:38 PM #

      Obrigado! =) Apesar de ser uma das maiores obras de Hitchcock, eu prefiro mesmo Janela Indiscreta.

  3. Rafael Oliveira 01/10/2010 às 8:36 PM #

    Do Hitch, eu só vi Um Corpo Que Cai ;(

  4. Edward Kollision 02/10/2010 às 3:04 PM #

    É inegável, não existe suspense melhor que este.

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