Cidade dos Sonhos (2001)

8 out

A sensação de assistir Cidade dos Sonhos é a mesma de montar um quebra-cabeça (daqueles de cinco mil peças bem difíceis). O filme proporciona tanta coisa surreal e abstrata num contexto inicialmente coerente, que acaba mexendo com o nosso subconsciente e nos desafiando a participar na solução de um enigma enlouquecedor. É protagonizado por duas beldades jovens e talentosas, que tornam tudo levemente menos difícil de encarar. No entanto, chega uma hora em que a beleza de Naomi Watts e de Laura Harring não é o suficiente para prender os espectadores desatentos que não embarcaram na trama labiríntica. Por isso, Cidade dos Sonhos é clara em suas intenções: não é para qualquer um, nem foi feito com o objetivo de agradar a todos. É do estilo “ame-o ou deixe-o”, valendo muito a pena para aqueles que escolhem amá-lo.

São duas histórias paralelas que tomam conta dos 145 minutos de filme, que misteriosamente são protagonizadas pelo mesmo elenco. A primeira é sobre a misteriosa Rita, que depois de perder a memória num acidente automobilístico em Hollywood, conhece a aspirante a atriz Betty, que a ajudará a recuperar sua memória. As duas se empenham numa trama assustadora e cheia de esquisitices na hora de descobrirem o passado de Rita, enquanto desenvolvem um tipo de sentimento de solidariedade mútuo que ultrapassa as barreiras do aceitável.

Quando você pensa que já está conseguindo entender as enxurrada de enigmas e mistérios que vão se formando na primeira metade do filme, surge então subitamente uma nova história com novos conflitos. Agora tudo parece bem mais obscuro, principalmente pelo fato de Naomi Watts e Laura Harring também serem as novas protagonistas. É como se assim pudéssemos finalmente entender todas as dúvidas de Rita, ficando tão perdidos quanto ela.

A primeira metade e a segunda são opostas, mas com um desfecho em comum. No entanto, toda a estética e temática são diferentes, dividindo o filme em dois trabalhos difusos. Na verdade, nem parece que foi o mesmo cineasta que dirigiu as duas partes. Sendo assim, a obra se diferencia como uma das mais únicas e diferentes de todos os tempos, alcançando fácil o status de obra-prima. A primeira temática nos faz lembrar toda a complexidade dos sonhos, cheia de abstrações que trazem junto de si uma lógica nem sempre tão linear e sensata, mas com uma beleza tipicamente vista na mente dos sonhadores. O segundo ato é o oposto, repleto de suspense e mistério, trazendo uma nuvem negra de dúvidas e medo. A fotografia das duas é diferente, a filmagem também, e tudo dá a entender que o filme caminha para um desfecho ilusório e insatisfatório. Mas para os mais atentos, tal desfecho trará a resposta para todas as dúvidas dessa história deliciosamente enlouquecedora.

Desde sempre que Lynch aborda esquisitices em seus filmes, de modo que dizer que Cidade dos Sonhos é estranho seria chover no molhado. No entanto, esse filme merece destaque por conseguir ser ainda mais maluco e ainda mais bem elaborado, repleto de criatividade e novas idéias. Dentro de seus limites, foi um dos filmes mais inovadores da última década, trazendo uma história verdadeiramente inteligente que massageia como ninguém o QI do espectador. Talvez não tenha agradado a todos, mas agradou os críticos, trazendo à Lynch uma indicação ao Oscar de melhor diretor (que merecia ter ganhado).

Depois deste, Lynch só reapareceu em Hollywood para estrear Império dos Sonhos (Inland Impire, 2006), com a intenção de trazer novamente uma obra bem elaborada e amalucada. Só que dessa fez o sucesso não foi obtido, já que o diretor se perdeu numa história ambiciosa demais. Seja como for, Cidade dos Sonhos é a última empreitada de sucesso do diretor, que prova mais que todos os outros filmes o talento e criatividade dele. Mesmo que ele nunca mais consiga encontrar uma fórmula correta para aplicar suas idéias doentias, Lynch já conseguiu se consagrar como cult entre seus fãs, sendo responsável por vários dos títulos mais inovadores e diferentes do cinema. Se esses trabalhos alternativos são bons ou não, não vem ao caso. O que conta é a inovada que cada um deles trouxe consigo, nos dando a esperança de que talvez nos traga no futuro uma nova obra-prima brilhante e cheia das loucuras típicas dele.

2 Respostas to “Cidade dos Sonhos (2001)”

  1. Renan Marino 09/10/2010 às 6:40 PM #

    Ótima análise do filme, que define exatamente o que Lynch é: louco, doido de pedra. O cinema precisa de mais cineastas assim.

  2. Edward Kollision 09/10/2010 às 10:34 PM #

    Apesar de estar sumido, Lynch ainda permanece como um de meus diretores favoritos.

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