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O Encanto do Cinema: Como a Sétima Arte Atinge sua Vida?

31 out

Nessa segunda parte de nossa série de entrevistas, Alexandre Koball nos trará sua opinião a respeito do encanto e do poder do cinema na vida das pessoas. Koball é editor e fundador do site Cineplayers, e declara-se apaixonado por cinema há pelo menos uma década. Desde que o site começou suas atividades, em 2003, ele já criticou mais de 300 filmes, usando sempre sua visão afiada na hora de estabelecer um “veredito”. Ao longo dos anos veio conquistando fãs e admiradores por meio da paixão pela sétima arte.

Confira abaixo a entrevista:

Sindicato – Alexandre, você diz que se apaixonou pelo cinema há mais de uma década. Sendo assim, como você descreveria o cinema do seu ponto de vista?

Koball – Sim, é verdade. O cinema começou como um hobby (antes, eram os games) e virou uma paixão, uma forma de conhecer e me aprofundar sobre a vida, sentir emoções que somente através dele poderia sentir ou, esporadicamente, entreter-me.

Sindicato – Algum filme em especial pode ser considerado como o responsável por essa paixão pelo cinema?

Koball – A nova versão de Star Wars, apesar de hoje vê-la como filmes inferiores à trilogia original, me despertou esse sentimento. O tom épico que foi dado aos filmes em 1999 e 2002, a expectativa, a ansiedade, tudo isso contribuiu. Depois veio a trilogia O Senhor dos Anéis, que pegou tudo isso e jogou a níveis exponenciais. A partir daí vieram Trier, Kurosawa, Scorsese, e a lista segue…

Sindicato – Seu gosto pelo cinema o levou a fundar um site sobre o tema juntamente com outros cinéfilos. O que envolveu a criação desse site, desde os primeiros passos até a popularidade alcançada por ele hoje?

Koball – O que envolveu foi essa paixão crescente, a necessidade de ir além de assistir filmes. Sozinho, fazer algo assim era muito difícil, mas ao juntar quatro amigos de Internet com o mesmo sentimento, não apenas foi fácil (apesar dos desafios), como ajudou e muito a aumentar o conhecimento e a paixão sobre cinema. Desde o começo tudo que diz respeito ao site foi conquistado com nosso próprio trabalho, não ganhamos nada, jamais, e isso de certa forma nos motivou. A partir de 2003 foi um crescimento constante. Naquela época já existiam sites de cinema e não prevíamos que iria dar tão certo (era apenas um sonho), mas com a resposta dos leitores, a motivação para insistir e prosperar foi constante e aí vieram a segunda e a terceira versões. Pretendemos dar continuidade a tudo isso enquanto houver paixão.

Sindicato – Hoje a popularidade e a qualidade do site se devem a o quê?

Koball – Tentamos fazer o que os leitores gostam, na medida do possível. Temos milhares deles, apaixonados por cinema, e direcionamos o conteúdo do site e suas seções e funcionalidades ao que eles querem. Antes não era assim, a gente fazia o que achava que era melhor. Felizmente deu certo pois somos cinéfilos também e se a gente gostava então a maioria dos cinéfilos gostariam também, digo, com relação aos tops, críticas de clássicos, estilo dos fóruns. Mas hoje, até pela concorrência, estamos direcionando nossos esforços, mais do que nunca, a atender aos pedidos dos leitores. Por isso tantas promoções, cadastros direcionados aos leitores, implementação de funcionalidades que os leitores gostariam de ver. Misturamos isso ao que existe desde o começo do site, não queremos perder nossa essência também, e fazer algo seguindo a moda (no caso, mídias sociais), pois a moda sempre muda, já o cinema, acreditamos, é eterno.

Sindicato – Você nunca cursou nada a respeito de cinema ou a respeito de escrita. Então de onde vem essa habilidade incrível em criticar os filmes com um aspecto tão profissional?

Koball – Não me considero tudo isso, nem de longe. Como o site é muito popular, é fácil encontrar quem goste, na mesma proporção de quem critica negativamente. É o que acontece quando você se expõe publicamente. Mas, se há qualidades, acredito que elas venham de três coisas: paixão pelo cinema, pela leitura e pela escrita. Qualquer um que tenha isso dentro de si não precisa de formação acadêmica, nesse caso.

Sindicato – Sua postura indica que você tem uma opinião bem formada sobre todas as facetas do cinema. Então, com sinceridade, quais são os defeitos existentes nesse ramo?

Koball – O maior defeito, infelizmente, é o que faz ele ir em frente. É a questão comercial, fazer os filmes pelo dinheiro, atropelando o amor, ignorando a qualidade. Isso existe há décadas mas está muito forte hoje, mais do que nunca quase tudo é negócio, necessidade de faturamento. Mas, sem dinheiro, não dá para fazer os filmes verdadeiramente bons, a não ser com recursos particulares, e nesse caso seriam pouquíssimos os cineastas envolvidos na construção de obras-primas.

Sindicato – Quais são suas preferências no cinema? Diretores, atores, gêneros…

Koball – Amo o cinema de terror ou suspense, aquele que faz arrepiar a espinha, por isso sou apaixonado por Hitchcock, Polanski, e através do próprio site e dos próprios leitores e outros editores, pude experimentar muitas coisas novas nesse gênero. Mas também amo os épicos, por isso minha admiração por Ben-Hur, Senhor dos Anéis, etc. No fim das contas, fica impossível definir minhas preferências.

Sindicato – Qual sua opinião a respeito do cinema nacional?

Koball – Está decolando, finalmente. Ganhando variedade e grande público. Precisaria se desvencilhar do monopólio da Globo Filmes, ter um segundo nome com sua força, aí sim, seria questão de tempo até ele atingir as alturas.

Sindicato – Se você pudesse escolher, qual filme levaria o prêmio na próxima cerimônia do Oscar, e por quê?

Koball – É muito cedo para dizer, A Origem é o grande blockbuster do ano mas um filme assim não tem chance. Talvez A Rede Social, de Fincher, que deve ser fenomenal. Mas os grandes candidatos ainda virão, como The King’s Speech, 127 Hours e a refilmagem de Bravura Indômita, dos Coen. Vai ser interessante.

Sindicato – Em linhas gerais, como o cinema afeta sua vida?

Koball – Ele faz parte do dia-a-dia, sem exceções. Ele ajuda a definir minha personalidade (pois tiro coisas importantes de grande parte dos filmes) e conhecimento. Somos bem ligados.

Sindicato – Para terminar, gostaria que você citasse uma frase de algum filme que tenha um valor especial para você.

Koball – Não uma frase, mas todos os grandes diálogos de 12 Homens e uma Sentença. São arrepiantes sempre que revisito o filme.

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Cinema Paradiso (1988)

22 out

Singela homenagem ao cinema e a todos os seus atributos, Cinema Paradiso é um filme sem grandes pretensões, mas que consegue tocar o coração de qualquer apaixonado pela Sétima Arte. Com sua simplicidade e doçura, esse filme conseguiu ir longe, no sentido de realizar um dos mais verdadeiros retratos da importância que o cinema tinha no passado e a importância que ele adquiriu depois do lançamento da televisão. Mesmo com o passar dos anos, todas as idéias desse filme ainda permanecem vivas e válidas quanto aos assuntos que a obra aborda.

Através do pequeno Salvatore, ou Totó, conheceremos a vida dos moradores de um pequeno vilarejo italiano na época da 2ª Guerra Mundial. Totó é um menininho esperto e cheio de vida, que ama mais que tudo em sua vida passar as tarde no cinema Paradiso, ao lado do projecionista Alfredo. Aos poucos, Alfredo e Totó desenvolvem uma amizade inestimável, onde Alfredo ensinará ao pequeno garoto como conhecer melhor a essência dos filmes.

Entramos então num delicioso universo de filme e magia, onde vemos como o cinema tinha um poder grande sobre as pessoas daquela época. Sendo a maior diversão da cidadezinha, o Cinema Paradiso vivia lotado, cheio de adultos e crianças brigando por um ingresso para ver algum filme de Cary Grant ou Brigitte Bardot. Seja como for, mesmo entre as confusões causadas pelos excessivamente animados moradores daquele lugar, uma coisa fica bem clara: o poder que o cinema tinha em suas primeiras décadas de vida, e como ele conseguia marcar a vida das pessoas. A infância inteira de Totó foi marcada apenas pelas suas tardes nesse cinema, já que sua família passava dificuldades depois do desaparecimento de seu pai durante a guerra.

O Cinema Paradiso é na verdade uma analogia que descreve a vida de milhares de pessoas que viviam naquela época sofrida tanto para a Europa quanto para a América, em que a guerra não deixava nada além de desgraças de sofrimento. A única forma de se distrair um pouco era através das telonas repletas de filmes emocionantes, dando ao cinema um significado mais precioso para todos os que viveram nesses tempos turbulentos.

O filme também retrata a forma como o cinema foi perdendo vida com o surgimento da televisão, de forma que toda aquela magia encantadora que ele exercera antes naqueles moradores, foi se apagando à medida que a televisão ganhava popularidade. De fato, hoje em dia o cinema é uma diversão opcional em relação à televisão, mas isso fez com que muitos perdessem aquele sentimento bom e verdadeiro que somente essa forma de arte pode proporcionar. Nos dias atuais, são poucos que enxergam o cinema com a mesma intensidade e seriedade daquelas pessoas que viviam no vilarejo italiano e iam todas as noites assistir um filme no cinema Paradiso.

Além do cinema em si, o filme aborda também outros temas profundos, como o crescimento e a amizade. Usando mais uma vez o cinema como pano de fundo, nós acompanhamos o amadurecimento de Totó com o passar dos anos, assim como o crescimento de sua amizade com Alfredo. E a grande responsável pela serenidade e beleza dessas passagens é a trilha sonora inesquecível de Ennio Morricone (nada melhor do que um italiano para criar uma trilha sonora tão envolvente num filme como esse). Simples, porém profunda, essa trilha sonora tem o poder de arrebatar e fechar com chave de ouro cada sequencia emocionante da trama.

As decisões que Totó toma na vida à medida que cresce são bastante drásticas, de forma que muita coisa acontece ao personagem e também aos moradores do vilarejo. Mas uma coisa não muda: as lembranças daquele cinema que sempre fez parte da vida de todos, que foi se deteriorando com a cruel passagem dos anos, mas que continuava intacto na memória de cada um deles. No nosso caso não é diferente, pois a vida é cheia de idas e vindas e não podemos ter certeza de muita coisa, mas serve de consolo saber que sempre haverá uma sessão de cinema em algum lugar da cidade, pronta para nos levar a outro universo e capaz de fazer-nos esquecer todos os problemas que um dia nos afligiram.

Cidade dos Sonhos (2001)

8 out

A sensação de assistir Cidade dos Sonhos é a mesma de montar um quebra-cabeça (daqueles de cinco mil peças bem difíceis). O filme proporciona tanta coisa surreal e abstrata num contexto inicialmente coerente, que acaba mexendo com o nosso subconsciente e nos desafiando a participar na solução de um enigma enlouquecedor. É protagonizado por duas beldades jovens e talentosas, que tornam tudo levemente menos difícil de encarar. No entanto, chega uma hora em que a beleza de Naomi Watts e de Laura Harring não é o suficiente para prender os espectadores desatentos que não embarcaram na trama labiríntica. Por isso, Cidade dos Sonhos é clara em suas intenções: não é para qualquer um, nem foi feito com o objetivo de agradar a todos. É do estilo “ame-o ou deixe-o”, valendo muito a pena para aqueles que escolhem amá-lo.

São duas histórias paralelas que tomam conta dos 145 minutos de filme, que misteriosamente são protagonizadas pelo mesmo elenco. A primeira é sobre a misteriosa Rita, que depois de perder a memória num acidente automobilístico em Hollywood, conhece a aspirante a atriz Betty, que a ajudará a recuperar sua memória. As duas se empenham numa trama assustadora e cheia de esquisitices na hora de descobrirem o passado de Rita, enquanto desenvolvem um tipo de sentimento de solidariedade mútuo que ultrapassa as barreiras do aceitável.

Quando você pensa que já está conseguindo entender as enxurrada de enigmas e mistérios que vão se formando na primeira metade do filme, surge então subitamente uma nova história com novos conflitos. Agora tudo parece bem mais obscuro, principalmente pelo fato de Naomi Watts e Laura Harring também serem as novas protagonistas. É como se assim pudéssemos finalmente entender todas as dúvidas de Rita, ficando tão perdidos quanto ela.

A primeira metade e a segunda são opostas, mas com um desfecho em comum. No entanto, toda a estética e temática são diferentes, dividindo o filme em dois trabalhos difusos. Na verdade, nem parece que foi o mesmo cineasta que dirigiu as duas partes. Sendo assim, a obra se diferencia como uma das mais únicas e diferentes de todos os tempos, alcançando fácil o status de obra-prima. A primeira temática nos faz lembrar toda a complexidade dos sonhos, cheia de abstrações que trazem junto de si uma lógica nem sempre tão linear e sensata, mas com uma beleza tipicamente vista na mente dos sonhadores. O segundo ato é o oposto, repleto de suspense e mistério, trazendo uma nuvem negra de dúvidas e medo. A fotografia das duas é diferente, a filmagem também, e tudo dá a entender que o filme caminha para um desfecho ilusório e insatisfatório. Mas para os mais atentos, tal desfecho trará a resposta para todas as dúvidas dessa história deliciosamente enlouquecedora.

Desde sempre que Lynch aborda esquisitices em seus filmes, de modo que dizer que Cidade dos Sonhos é estranho seria chover no molhado. No entanto, esse filme merece destaque por conseguir ser ainda mais maluco e ainda mais bem elaborado, repleto de criatividade e novas idéias. Dentro de seus limites, foi um dos filmes mais inovadores da última década, trazendo uma história verdadeiramente inteligente que massageia como ninguém o QI do espectador. Talvez não tenha agradado a todos, mas agradou os críticos, trazendo à Lynch uma indicação ao Oscar de melhor diretor (que merecia ter ganhado).

Depois deste, Lynch só reapareceu em Hollywood para estrear Império dos Sonhos (Inland Impire, 2006), com a intenção de trazer novamente uma obra bem elaborada e amalucada. Só que dessa fez o sucesso não foi obtido, já que o diretor se perdeu numa história ambiciosa demais. Seja como for, Cidade dos Sonhos é a última empreitada de sucesso do diretor, que prova mais que todos os outros filmes o talento e criatividade dele. Mesmo que ele nunca mais consiga encontrar uma fórmula correta para aplicar suas idéias doentias, Lynch já conseguiu se consagrar como cult entre seus fãs, sendo responsável por vários dos títulos mais inovadores e diferentes do cinema. Se esses trabalhos alternativos são bons ou não, não vem ao caso. O que conta é a inovada que cada um deles trouxe consigo, nos dando a esperança de que talvez nos traga no futuro uma nova obra-prima brilhante e cheia das loucuras típicas dele.

Tony Curtis: Um dos figurões da Era de Ouro em Hollywood

2 out

No dia 30 de setembro de 2010, o cinema americano perdeu um de seus maiores nomes, o ator Tony Curtis. Famoso nas produções hollywoodianas principalmente nas décadas de 1950 e 1960, esse astro era até pouco tempo uma das maiores lendas vivas da glamorosa Era de Ouro. Seu par de olhos claros e seu topete estrategicamente posicionado na cabeça fizeram dele um dos maiores galãs arrasadores de corações das jovenzinhas de sua época, sendo até hoje considerado um dos atores de maior beleza que já passaram por Hollywood. No entanto, toda essa beleza acabou sendo um empecilho em sua carreira, impedindo que fosse levado a sério como um artista de talento. Hoje sabemos que ele foi um dos mais talentosos nomes de sua época, mas naquele tempo as produtoras só queriam mesmo saber da bilheteria que sua beleza invejável arrecadava.

Seu nome real é Bernard Schwartz, nascido no dia 5 de Junho de 1925, no Bronx, um pouco respeitado bairro de Nova York na época. Filho de um pobre alfaiate, e cheio de problemas de família, chegou a passar um tempo morando num orfanato com seu irmão. Cresceu num ambiente pouco agradável e chegou a se envolver com gangues na sua pré-adolescência. Ainda jovem se alistou na Marinha e foi para a Segunda Guerra Mundial, onde viveu situações dignas de filme lá para os lados do Japão. Ao voltar para a América, usou todo o resto de seus recursos para pagar aulas de interpretação. Não foi preciso muito para se fazer notar depois de alguns papéis pequenos em teatros, chamando atenção de produtores da Universal, conseguindo em seguida um contrato de sete anos com a produtora.

Apesar de ser um dos protegidos da produtora, demorou um pouco até Curtis conseguir um papel bom num filme, o que lhe deu tempo de sobra para ir aperfeiçoando suas habilidades em artes cênicas, esgrima e montaria. Depois de algumas produções pequenas que só visavam atrair o público jovem ao cinema, Curtis recebeu um convite de Burt Lancaster para atuar ao seu lado em Trapézio (Trapeze, 1956) e A Embriaguez do Sucesso (Sweet Smell of Success, 1957), conseguindo finalmente ganhar um reconhecimento maior. Uma coisa levou a outra e logo recebeu uma indicação ao Oscar pelo seu trabalho em Acorrentados (The Defiant Ones, 1958), seguido por uma participação grande e mega famosa na comédia de Billy Wilder, Quanto Mais Quente Melhor (Some Like it Hot, 1959), num papel arriscado e muito bem sucedido.

Papéis mais respeitados vieram em filmes grandes como Spartacus (Spartacus, 1960), de Stanley Kubrick, e O Homem que Odiava as Mulheres (The Boston Strangler, 1968), interpretando neste último um serial killer inescrupuloso. Apesar dessas grandes oportunidades, nunca quis deixar a comédia de lado, estrelando também bons filmes do gênero, como Boeing Boeing (Boeing Boeing, 1965) ao lado de Jerry Lewis.

A década seguinte foi mais calma para a carreira cinematográfica do ator, onde se focou mais em trabalhos na televisão e teatro, aparecendo vez ou outra nas telonas. Suas atuações mais conhecidas dessa época foram nos filmes O Último Magnata (The Last Tycoon, 1975), de Elia Kazan, e Malícia Atômica (Insignificance, 1985). Na metade final da década de 1980, foi se dedicando mais a outros tipos de arte, como pintura e música.

Sua vida pessoal era um tanto movimentada, sendo casado nada menos que seis vezes, uma delas com a atriz Janet Leigh, famosa por sua participação em “Psicose” (Psycho, 1960), com quem teve a única filha que seguiu a carreira artística do pai, Jamie Lee Curtis.  A mais recente, Jill Vandenbergh Curtis, é 42 anos mais nova, e o total de filhos que teve foram seis. Um de seus filhos já morreu, ainda jovem, trazendo um grande momento de depressão para o ator.

Nos palcos da Broadway teve o prazer participar na versão musical de Quanto Mais Quente Melhor, interpretando o papel de Osgood Fielding III, em 2002. Claro que nesse momento ele já não desfrutava de um sucesso avassalador, podendo aproveitar melhor seu fim devida. Curtis nunca fez questão de esconder o seu desagrado com a vida pública e com o assédio que levava na época de seu estrelato, dizendo certa vez que tinha duas profissões: uma como ator e outra como famoso.

Andava meio sumido de teatros, filmes e televisão nos últimos anos, com a saúde bastante debilitada também. Na noite de quarta-feira do dia 29 de Setembro de 2010, teve uma parada cardíaca e acabou levando óbito horas mais tarde, aos 85 anos. Sua filha Jamie Lee Curtis anunciou sua morte no dia seguinte, frisando que Hollywood perdia ali um de seus grandes nomes.

Por um lado ficamos tristes por essa grande perda sofrida no cinema, mas como consolo sabemos que uma das vantagens desse tipo de arte é o poder de imortalizar seus artistas. Por isso Tony Curtis será sempre lembrado por todos que já tiveram o enorme prazer de vê-lo em cena, conferindo de perto seu grande talento e carisma. Desde sua inesquecível atuação travestida em ‘Quanto Mais Quente Melhor’, ao lado de Jack Lemmon e Marilyn Monroe, até seus papéis mais sérios e cultuados. Tudo pode ser considerado um primor na carreira desse grande intérprete, que soube usar sua vida em dedicação à arte, nos possibilitando assim de checá-lo sempre que possível em seus grandes trabalhos.

Psicose (1960)

30 set

Existem suspenses e suspenses, uns bons outros ruins. Uns assustam, outros apavoram, alguns nem chegam a causar nem sequer um vestígio de medo. Independente de suas diferenças, todos os filmes de suspense devem agradecer a existência de Psicose, pois foi este que causou uma das maiores reviravoltas do gênero. Diferente de tudo feito até então essa obra se mostrou o ápice da carreira de Hitchcock, e isso significa muita coisa se tratando de um dos maiores diretores de todos os tempos.

Psicose possui todos os elementos de um suspense refinado e bem sucedido, como somente Hitchcock poderia fazer. No entanto, há dois elementos que me chamaram mais atenção e que tornam o filme simplesmente irresistível: o suspense de caráter psicológico e o vilão. Numa trama enlouquecedora, esses dois elementos criam uma atmosfera de pânico puro, em que fica impossível não sentir seus pêlos de todo o corpo arrepiarem. Nunca antes foi analisada tão a fundo a inteligência emocional dos personagens de um filme, sendo esse recurso um dos grandes responsáveis na construção de uma trama doentia e cativante. A ousadia do diretor em quebrar tantas barreiras elevou esse trabalho a um patamar diferenciado de todos os outros trabalhos feitos na época, e até hoje Psicose se mantém como um capítulo à parte na história do cinema, assim como seu realizador.

A premissa é surpreendentemente simples, onde conhecemos Marion Crane, uma funcionária de uma imobiliária que decide dar um golpe no patrão e fugir de tudo e de todos. Depois de escapar com a grana, Marion se refugia num hotelzinho afastado das rodovias e de aspecto misterioso. Começa então uma jornada de terror e agonia, onde presenciamos uma das maiores cenas já feitas no cinema (nem preciso dizer que se trata da “cena do chuveiro”).

A atmosfera criada por Hitchcock nos prende desde o início do filme, mesmo antes do suspense começar pra valer. A trilha sonora sublime se encarrega na hora de criar um clima de constante tensão e medo, mesmo que não haja motivo para medo nos primeiros minutos. É como se a trilha sonora fosse um personagem concreto que nos avisa do que está por vir, e isso vai causando um frenesi tão grande que quando o terror aparece de verdade nós já nos encontramos num estado terrível de agonia. A fotografia em preto-e-branco é outra ideia usada pelo diretor na hora de sumir com o colorido das paisagens, de forma que tudo se torna mais sombrio e claustrofóbico. Na verdade, a iluminação precária e o preto-e-branco foram recursos usados pelo diretor para deixar o filme com ar de produção barata, acentuando mais ainda o terror.

Podemos dividir Psicose em dois momentos, como se fosse dois filmes. A primeira meia hora é praticamente nula em diálogos, rica em close-ups, e se foca inteiramente no perfil psicológico de Marion Crane. Muito eficaz na hora de desenvolver a trama numa verdadeira tortura para nossa protagonista, o roteiro foi o grande responsável também na hora de nos ajudar a entender todos os conflitos emocionais de Marion. Mas então a vida dela se cruza com a de Norman Bates, o esquisito dono do hotelzinho. O roteiro passa então a mudar de foco, de modo que tanto nós como a protagonistas passamos a exercitar o voyeurismo no que diz respeito às esquisitices cometidas por Bates. Então somos conduzidos até o momento mais sanguinário do filme, onde ocorre o famoso assassinato no chuveiro. Alguns minutos depois desse momento começa então o “segundo ato” da história, onde seremos guiados por uma nova protagonista e por novos personagens, sendo Norman Bates o único personagem em comum entre os dois atos. Essa segunda metade é mais movimentada e contém maior quantidade de diálogos, deixando o horror um pouco de lado para iniciar uma trama de investigação implacável. O terror voltará com força total nos momentos finais do filme, mas deixará o suspense como seu aliado enquanto estiver fora.

Nessa história toda, o personagem de maior destaque (como acontece em praticamente todos os filmes do gênero) é o vilão. Norman Bates é um dos antagonistas mais psicóticos e doentios de toda a história do cinema, exemplificando diversos tipos de insanidade em uma só pessoa. O título do filme, Psicose, não poderia ser mais apropriado em vista da terrível instabilidade mental de nosso vilão. Apesar de aparecer pouco em cenas violentas, Bates sabe causar um medo fora do sério apenas com sua presença mórbida e funesta. Hoje em dia ele é o segundo maior vilão do cinema segundo o American Film Institute, ficando apenas atrás do Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) de O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1991).

Toda essa abordagem psicótica fez desse filme um dos maiores de sua época, sendo indicado ao Oscar de Melhor Direção. Infelizmente acabou perdendo a estatueta para Se Meu Apartamento Falasse (The Apartament, 1960), já que os críticos da época o consideraram “doentio demais”. Esse foi um grande golpe para Alfred Hitchcock, que fez questão de mostrar até o fim de sua vida todo o desgosto de nunca ter levado um Oscar pela Academia.

Um dos motivos de Psicose ter sido tão arrebatador, além de suas abordagens psicanalíticas, foi a forma como o filme utilizou de outros temas fortes e pouco abordados até então. Sua abordagem sobre sexo, por exemplo, foi escandalosamente inovadora, mostrando sem preconceitos a vida sexual duvidosa da protagonista, além de expor a atração sexual doentia que Bates sente por Marion. Dessa forma, Psicose foi um filme deliciosamente inovador, misturando a tensão psicológica com a expressão sexual da protagonista numa fórmula certeira. Depois de 20 anos, Brian De Palma criou um filme com praticamente os mesmos elementos, Vestida para Matar (Dressed to Kill, 1980), mas sem tanto sucesso artístico, apesar de ser um filme bastante interessante.

O sucesso alcançado por esse filme foi astronômico, de forma que muitas continuações vieram desde então, além de infindáveis imitações (inclusive um medonho remake em 1998). Mas nenhum filme conseguiu misturar tão bem os elementos de medo usados em Psicose. Somente a mente criativa e, de certa forma, doentia de Hitchcock poderia ser responsável por uma obra-prima tão exata e cativante. Apesar de já ser considerado um clássico antigo, podemos dizer que é um filme que até hoje consegue ser assustador sem apelar para as cafonices dos terrores antigos. Mesmo sendo tão sofisticado e cheio de idéias originais, Psicose também soube usar dos mais clássicos elementos causadores de medo, como é o caso da mansão gótica habitada por Norman Bates. Essa mistura de originalidade com tradição resultou num filme de suspense/terror impecável.

Sabendo como mexer com o nosso psicológico como ninguém, Hitchcock criou um filme de primeira qualidade, que sabe como nos atingir de formas diferentes a cada nova cena que se passa. Sendo assim, ficamos grudados na tela durante toda sua duração, até chegarmos na cataclísmica cena final, lotada de verborragia e insanamente sedutora.

Tempos Modernos (1936)

24 set

Seja pela comédia irreverente, seja pela feroz crítica ao capitalismo em ascensão, ou até mesmo pelo mero prazer de ver Carlitos “em ação”, Tempos Modernos traz o melhor do melhor personagem da carreira do grande Charles Chaplin. Poucas comédias conseguem aproveitar tão bem os momentos certos para trazer uma piada acompanhada de grandes significados. Afinal, as melhores comédias são aquelas que têm algo a dizer ou a expor. Sendo assim, esse filme é nota 10 em todos os temas que aborda.

O que podemos dizer de Tempos Modernos? Ele traz mais do mesmo da maior parte da filmografia de Chaplin, e isso é o seu maior atributo. Por mais que se pareça em muitos momentos a outros filmes do diretor, esse ainda consegue ir um pouco além ao que diz respeito a uma sátira ácida contra a sociedade. O título do filme já indica que a modernidade é o alvo das tiradas de humor, assim como consegue ser seriamente criticada em meio a tantas cenas cômicas. Dessa vez vemos Carlitos sendo explorado numa fábrica, onde trabalha feito escravo e acaba ficando louco, indo para um manicômio, sendo confundido como um comunista e por aí vai.

A forma como o filme aborda o dia a dia de uma fábrica repleta de trabalhadores explorados é de extrema precisão. Tudo, obviamente, é maquiado pelas trapalhadas cometidas por Carlitos o tempo todo. E toda essa comédia ganha muito mais intensidade e humor quando se consegue captar a essência do que ela deseja passar (e desta vez o diretor não usou de muita sutileza). O capitalismo é severamente insultado, principalmente quando o filme mostra o contraste entre a situação precária dos trabalhadores e a situação cômoda e confortável do dono da fábrica, que enriquece a cada minuto que se passa em cima da exploração de seus empregados. Depois de ficar louco de tanto trabalhar, Carlitos ainda é tratado como o culpado de tudo pela sociedade, que repudia suas lamentações.

De uma forma um tanto precisa e estrategicamente planejada, podemos ver uma abordagem corajosa sobre o comunismo. Na época em que esse filme foi lançado havia uma enorme tensão entre comunistas e capitalistas, e pelo fato de EUA ser um país capitalista, era comum haver censuras a pessoas que pensassem diferente das teorias desse sistema. Na própria Hollywood havia uma séria tensão, onde ocorreu a famosa “caça às bruxas”, onde os próprios diretores dedavam seus colegas que pensassem de uma maneira mais puxada ao socialismo. Sendo assim, era necessária muita coragem em realizar um filme tão revelador como Tempos Modernos, que mostrava sem pestanejar que seres humanos eram mais importantes do que as máquinas e seus lucros.

Ignorando as censuras e se atrevendo a criar uma obra tão ousada, Chaplin provou que seus ideais eram mais importantes do que fazer um filme dentro dos padrões aceitáveis em Hollywood. Mais do que um insulto ao cinema americano, esse filme foi uma provocação ao governo da época. E mesmo sendo tão polêmico, conseguiu conquistar uma multidão de fãs por todo o mundo, provando que Chaplin não era o único a pensar daquele jeito. Ao contrário do que muitos pensam, não se trata de um filme comunista, mas sim de um trabalho corajoso o suficiente para se colocar contra o capitalismo compulsivo e destruidor. Infelizmente, muitos não viram suas reais intenções, e Chaplin foi taxado como comunista, assim como seu personagem é confundido como um durante determinado momento da trama.

Mas para aqueles que não se interessam por política ou por contextos históricos, Tempos Modernos continua valendo como uma deliciosa comédia. Cada cena que se passa consegue ser mais divertida que a anterior, e Carlitos transborda carisma e inteligência em cada movimento seu. Dessa forma, esse filme consegue atingir a todos, uns mais profundamente e outros de forma mais superficial, mas sempre com êxito em divertir e se infiltrar em nossa memória. Por isso é esse clássico tão inesquecível que permaneceu tão famoso diante da passagem de tempo, e com certeza prevalecerá como uma das maiores comédias de todos os tempos.

O Encanto do Cinema: Como a Sétima Arte Atinge sua Vida?

22 set

Nada melhor do que discutir cinema com outras pessoas, conhecer opiniões alheias e saber como esse tipo de mídia atinge cada um de uma forma diferente. Começo essa reportagem com uma série de entrevistas com pessoas comuns do nosso dia a dia, as quais têm o cinema como grande fonte de entretenimento. A escolhida para iniciar o especial é a querida Josiane Kleinschmidt, mais conhecida como Josi por todos os seus fãs. Josi é uma das colaboradoras do site Cineplayers e é fã de cinema desde a adolescência. Segue abaixo a minha entrevista com ela:

Sindicato – Josi, você se diz uma amante do cinema. Mas o que é cinema para você? Como você o descreveria?

Josi – Em primeiro lugar, sou sim uma pessoa que ama o cinema em sua totalidade. Tanto que dei um “jeito” de estar ligada a ele em quase todos os momentos do meu dia. Trabalho em uma videolocadora e também faço parte do site www.cineplayers.com, onde sou estagiária e ajudo nos cadastros de fichas de filmes e perfis. E descreveria o cinema como algo que me faz viajar em pouco mais de uma hora por vários lugares, mesmo sentada na poltrona de casa ou na sala escura. Também o descreveria como uma maneira de vivenciar algo novo a cada projeção, vendo a vida sob vários pontos de vista.

Sindicato – Tem algum filme em especial que fez você se apaixonar pelo cinema?

Josi – Pode parecer brincadeira, mas o que me fez abrir os olhos para a arte do cinema foi “Lua de Cristal”.

Sindicato – Muitas pessoas dizem gostar de cinema, mas são poucas as que realmente fazem dele um passatempo prioritário. Você se considera apenas uma admiradora saudável dessa arte ou uma verdadeira cinéfila de plantão?

Josi – Para que algo seja bom e duradouro, não pode ser exagerado. Então procuro manter a minha paixão pelo cinema dentro de um nível, o qual ele não extrapole o limite da paixão, nem vire prioridade. Pois a vida é feita de prioridades muito mais importantes, como a família. Mas o cinema é algo que acrescenta em minha vida.

Sindicato – Um cinéfilo de respeito é aquele que conhece todos o filmes, desde os clássicos até os mais desconhecidos?

Josi – Para mim um cinéfilo, ou qualquer pessoa em qualquer ramo que queira ser de “respeito”, é alguém que acima de tudo, procura a excelência no que faz e está sempre atualizado.

Sindicato – Qualquer pessoa pode ser considerada amante de cinema? Qual é o perfil básico de um fã desse tipo de mídia, na sua opinião?

Josi – Como o cinema é algo acessível para qualquer pessoa, acho que basta querer para ser um amante.

Sindicato – Você poderia descrever alguma cena ou sequencia de um filme que tenha te marcado?

Josi – A cena em “Dogville”, onde Grace, a personagem de Nicole Kidman, ordena a chacina de todos na vila onde ela havia se refugiado, não poupando nem as crianças.

Sindicato – Quais são suas preferências no cinema? Diretores, atores, gêneros…

Josi – Diretores: Lars Von Trier. Atores: George Clooney; Jason Statham. Atrizes: Nicole Kidman; Julia Roberts. Gêneros: não há um gênero específico. Eu procuro ver filmes bons, acima de tudo com algum conteúdo a me oferecer.

Sindicato – Há algo no cinema que te desagrade?

Josi – A falta de criatividade atual, o que faz o cinema ser inundado de adaptações, refilmagens e continuações. Ainda bem que tem pessoas (poucas) que ainda salvam.

Sindicato – Qual sua opinião a respeito do cinema nacional?

Josi – Ultimamente o cinema nacional está evoluindo bastante. Os roteiristas escrevem histórias mais fortes e parece que os envolvidos nas produções estão achando finalmente o caminho.

Sindicato – Se você pudesse escolher, qual filme levaria o prêmio na próxima cerimônia do Oscar, e por quê?

Josi – A Origem, de Christopher Nolan, pois é um filme muito inventivo. Se tratando de inovações e elementos diferenciados, pode ser não só um dos melhores do ano como um dos melhores de uns tempos para cá. Por enquanto, dos que eu vi até hoje, é o que mais tem cara de Oscar.

Sindicato – Por fim, Josi, em linhas gerais, como o cinema atinge sua vida?

Josi – O cinema atingiu e continua atingindo a minha vida principalmente no lado cultural. Através do cinema, podemos aprender várias culturas, palavras, idiomas e isso atinge diretamente o nosso dia a dia e a nossa convivência com a sociedade.

Sindicato – Para terminar, gostaria que você citasse uma frase de algum filme que tenha um valor especial para você.

Josi – “Um homem pode mudar tudo. Sua face, sua casa, sua família, sua namorada, sua religião, seu deus. Mas há uma coisa que ele não pode mudar. Ele não pode mudar sua paixão…”. De O Segredo dos Seus Olhos.

Veludo Azul (1986)

18 set

“She wore blue velvet…”

Assistir Veludo Azul proporciona tantos estímulos sensoriais como somente uma obra assinada por David Lynch poderia fazer. Forte e ao mesmo tempo poético, feroz e ao mesmo tempo tocante, repleto de significados e entendimentos. Mas se tratando do diretor, tais entendimentos e significados não fazem jus ao comum da sociedade, mas servem como uma forma de enxergá-la por outro prisma. Cada personagem e cada cenário, juntamente com todos os diálogos verdadeiros e por vezes perturbadores, compõem uma obra-prima de valor incalculável, capaz de mexer em lugares de nossas emoções que quase nenhum outro filme consegue alcançar.

O enredo é bastante diferente do comum (assim como todo o enredo dos filmes de Lynch). Nele conheceremos o rapaz Jeffrey Beaumont, morador de uma cidadezinha do interior americano, tipicamente suburbana. Por baixo dessa camada feliz e irritantemente perfeita, se esconde um submundo de violência e vergonha, repleto de todo o tipo de insanidade. Depois de se envolver numa possível trama de assassinato com a jovem e inocente Sandy, Jeffrey conhecerá o mundo obscuro de uma cantora de cabaré, Dorothy Vallens. Essa mulher sensual e misteriosa mantém uma relação sadomasoquista e inexplicável com o psicopata Frank Booth. Por trás dessa relação atípica, se escondem segredos do mundo das drogas, que somente Jeffrey poderá solucionar, tentando ao máximo não se deixar seduzir pela beleza e erotismo de Dorothy.

Um dos pontos altos do filme é o contraste que Lynch estabelece entre a perfeição e a loucura. De uma forma enlouquecedora, o diretor nos mostra o lado positivo e negativo de ambas. Sim, apesar de parecer uma sátira à sociedade perfeita americana, Veludo Azul também mostra o lado bom dela, sem apelar para política ou sonhos impossíveis (a cena em que Sandy revela seu sonho a Jeffrey exemplifica bem os pensamentos do diretor em relação à paz e à serenidade daquele tipo de vida). Da mesma forma, ele nos mostra como a loucura e a violência podem ser tanto boas quanto ruins, e a única forma que ele achou para expor isso foi através de seu roteiro avesso aos lugares comuns. As cenas protagonizadas por Isabella Rossellini e Dennis Hopper são fantásticas, tão bem feitas que toda aquela insanidade consegue parecer atraente e ao mesmo tempo repulsiva.

Deixando o roteiro espetacular um pouco de lado, é preciso muita atenção na trilha sonora. Sua função nesse filme não é apenas embalar a trama num ritmo agradável, mas serve como forma de narrar os sentimentos de alguns personagens. Veludo Azul, para quem não conhece, é na verdade uma canção de Bobby Vinton, que ganha vida na voz de Isabella Rossellini neste filme. Sua tradução é bastante profunda quando relacionada ao contexto do filme, sendo responsável na hora de criar mistério em volta do personagem de Hopper, que se emociona toda vez que a ouve. Outras musicas como “In Dreams” e “Love Letters” também exercem essa função na trama, mas com menos destaque da que dá título ao filme.

Os personagens também são outro triunfo à parte. Talvez seja Frank Booth o personagem mais marcante de Dennis Hopper, além se ser um dos vilões mais ímpares do cinema, principalmente com sua mania de torturar enquanto usa uma máscara de oxigênio, sentindo sofregamente a textura do veludo azul da roupa de Dorothy. Rossellini também encara uma de suas personagens mais notáveis, mostrando coragem ao protagonizar cenas fortíssimas de tortura e de nudez. Laura Dern também não decepciona na pele da adorável Sandy, sabendo compor uma mocinha sem deixá-la com um ar patético ou inútil. Kyle MacLachlan vive o seu primeiro protagonista, mostrando competência ao não se deixar ofuscar pelos personagens intrigantes de Rossellini e Hopper.

Com uma equipe tão competente de diretor e elenco, além de uma trilha sonora essencial, Veludo Azul pode ser considerado um dos mais poderosos filmes da carreira de Lynch, sendo o trabalho usado pelo diretor para provar que vinha para ficar, mesmo depois do fracasso comercial de Duna (Dune, 1984). Junto com O Homem Elefante (The Elephant Man, 1980) e Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001), Veludo azul fecha a trinca de ases dos filmes mais importantes da carreira de grande mestre do cinema, uma verdadeira fábrica de obras-primas.

“And I still can see the blue velvet through my tears”

Entrevista com o Vampiro (1994)

11 set

Esqueça os filminhos da saga Crepúsculo, esqueça as sequências da cine-série Anjos da Noite, esqueça a literatura atual sobre o tema. Sobre o assunto “vampiro”, são poucos filmes e livros que realmente valem a pena. Entrevista com o Vampiro, do diretor Neil Jordan, merece destaque em meio a tanta mesmice. Baseado na obra da expert em vampiros Anne Rice, esse filme é digno de nota por uma simples razão: o que importa no filme são de fato os vampiros. Apesar de outros elementos serem usados na trama, como romance e certa dose de erotismo, o vampirismo é o assunto central e de maior importância do começo ao fim.

O enredo é simples, mostrando uma entrevista de um corajoso jornalista com um vampiro. Nessa história contada pelo vampiro Louis (Brad Pitt), conheceremos sua vida depois de conhecer o lendário e temido vampiro Lestat (Tom Cruise). Lestat é um rico aristocrata do século XVIII, entediado com sua vida solitária e afastada dos outros vampiros, quando decide “morder” alguém para lhe fazer companhia e para ensinar tudo o que sabe sobre a vida vampiresca. O escolhido é, obviamente, Louis. No entanto, Louis é “bonzinho” demais para tal vida assassina, deixando Lestat sempre irritado e frustrado. O relacionamento frágil entre os dois se complica mais ainda quando surge a pequena Claudia (Kirsten Dunst) na história, que é transformada em vampira e passa a viver com os dois.

A história é bem seletiva no que mostra. Alguns elementos clássicos das histórias de vampiros ficaram de fora, como a aversão ao alho, o fato deles não terem reflexos nos espelho, dormirem em caixões empoeirados e se transformarem em morcegos. Todos esses elementos mais caricatos foram inteligentemente deixados de fora para dar mais realismo à obra. Por outro lado, os elementos mais importantes foram mantidos, como os caninos afiados e a fome de sangue, além da imortalidade e costumeira sensualidade. Em meio a tantos elementos bem utilizados, nos deparamos com uma forte e bem sucedida mistura de drama e terror.

Os personagens são o grande destaque. Cuidadosamente construídos, cada um mostra uma personalidade curiosa. Louis é de surpreendente bondade, mas ao mesmo tempo se mostra melancólico e desestimulado. A vampira Claudia é digna de nota, principalmente à medida que o tempo passa na história, já que sua mente cresce, mas seu corpo permanece eternamente como o de uma menina de nove anos. Sendo assim, Claudia desenvolve desejos naturais de mulher, como atração sexual pelo sexo oposto, mas não é encarada como uma, tornando-se revoltada e violenta. Lestat é o maior destaque, trazendo os clássicos traços de personalidade vampiresca, como a inteligência, beleza, sedução, elegância e, claro, a maldade. Outro personagem bem elaborado foi Armand, interpretado com toda a atenção por Antonio Banderas.

O filme também significou muito na carreira da maioria dos envolvidos. Kirsten Dunst encarava um de seus primeiros trabalhos, ganhando um grande destaque por sua atuação cativante. Essa atuação provavelmente foi o grande motivo dela ter chegado aonde chegou, pois deu a ela a oportunidade de ser “vista” em Hollywood. Antonio Banderas se aventurava, ainda meio tímido, pelos filmes norte americanos, depois de ser reconhecido por seus trabalhos na Espanha. O papel de destaque foi uma grande oportunidade para o ator entrar de vez em Hollywood. Para Brad Pitt, que encarou o personagem principal, foi uma chance de fugir dos papéis convencionais que lhe cercavam, dando-lhe a tão procurada oportunidade de mostrar seu talento além de sua beleza.Tom Cruise, no meio de todos, foi o que mais se deu bem na produção, já que Anne Rice não aceitou sua escalação para o papel de Lestat, mostrando-se bem contrariada quando ele foi confirmado para o elenco. Sua atuação memorável serviu de “cala a boca” para todos os que não botaram fé em seu talento, e a própria Anne Rice teve de reconhecer sua grande atuação.

Uma análise sobre o ser humano cabe como mensagem por detrás da história. Todas as vontades e inseguranças do homem são retratadas por meio dos vampiros, que nesse filme tem sentimentos e ansiedades como qualquer mero mortal. Medo da morte, do envelhecimento e de ser diferente são muito bem mostrados. Lestat representa tudo que o ser humano deseja de forma inconsciente, como a vida e a beleza eterna. Já Louis retrata as inseguranças e incertezas que o futuro nos reserva, além de mostrar um lado depressivo muito comum hoje em dia nas pessoas. De forma magistral, Jordan usa o vampirismo para retratar o humanismo.

O tema “vampiro” é algo que gera curiosidade e atração para todos, inclusive os diretores de Hollywood. Só a respeito do personagem mais famoso do meio vampiresco, Drácula, já foram feitas inúmeras produções, com destaque para Drácula (Dracula, 1931) e Drácula de Bram Stoker (Dracula, 1992), do grande Francis Ford Coppola. Ultimamente os vampiros tem sido usados para chamar a atenção ao romance bobinho dos filmes adolescentes, como no caso do já mencionado Crepúsculo (Twilight, 2008). Infelizmente, desde Entrevista com Vampiro, nenhum filme do gênero foi tão bem executado. Nenhum usou de originalidade, escuridão e inteligência que o gênero permite. Sendo assim, cada vez somos mais bombardeados por medíocres produções, como as continuações da saga de Stephenie Meyer.

Por essa e outras que “Entrevista com o Vampiro” merece reconhecimento. Desde sua maquiagem impecável, passando por uma bela fotografia e um roteiro afiado, o filme comete minúsculos deslizes, que nem merecem atenção. As indicações ao Oscar de melhor direção de arte e melhor trilha sonora só servem para fechar com chave de ouro a beleza do filme. Neil Jordan se mostrou um talentoso diretor, depois de já ter provado seu talento como roteirista ao ganhar o Oscar por Traídos pelo Desejo (The Crying Game, 1992).

Entrevista com o Vampiro proporciona, entre outras coisas, uma real e emocionante história de vampiro, deixando de lado as baboseiras usadas em outros filmes. Sendo assim é um dos filmes mais recomendados do gênero, por saber trazer em doses equilibradas a fórmula certa para matar a “sede de sangue” do espectador.

Disque M Para Matar (1954)

9 set

Eis aqui um dos mais bem elaborados trabalhos da carreira de Hitchcock, repleto de suspense, inteligência e surpresas. Baseado numa peça de teatro de grande suscesso na Broadway do dramaturgo Frederick Knott, Disque M Para Matar é um primor em tudo que se propõe a fazer.

Conta a vida de Tony Wendice, um aposentado tenista profissional que elabora um plano para assassinar sua esposa, Margot, após descobrir que esta tem um amante. Para isso ele chantageia um ex-colega de faculdade e arruma um álibe perfeito, ao lado do próprio amante de sua esposa. O plano é meticulosamente planejado e não há espaço para erros. Mas tudo vem por água abaixo e Tony deve partir para um rápido e inesperado plano B.

Em 2008 o filme ficou em nono na lista dos 10 maiores filmes de mistério na votação promovida pelo American Film Institute, além de ser reconhecido mundialmente por sua narrativa genial.

Se passa praticamente inteiro dentro de um apartamento, mas isso de modo algum o torna monótono. Pelo contrário, Hitchcock mantem uma tensão constante. Pioneiro na técnica 3D, Disque M Para Matar é gravado de forma peculiar, em função das três dimensões. Percebe-se isso na forma como os objetos são colocados em primeiro plano em relação aos atores, deixando mais acentuado o efeito de profundidade. Também é interessante notar que o cenário é bem parecido com os cenários de peças de teatro, escolha feita por Hitchcock para deixar a trama com um ar teatral. Os personagens são filmados dos pés à cabeça, dando a oportunidade do espectador notar seus movimentos pelo assoalho, também para acentuar o efeito teatral.

Muito inteligente, o diretor faz do personagem Tony um cara carismático e divertido, impedindo uma possível rejeição do público. Ray Milland interpreta Tony com grande talento, já que o personagem vai mudando seu bom humor à medida que seus planos começam a desandar, de modo que o Tony do final é um Tony totalmente diferente do início. Grace Kelly também tem mudanças gradativas, mostradas claramente pelo seu figurino. De início ela usa cores mais vivas como vermelho, mas conforme o filme passa ela traja cores mais amenas, como o cinza.

Uma coisa rara nos filmes de Hitchcock: o inspetor de polícia é bastante simpático. Na maioria dos filmes do diretor, a polícia é retratada como severa, já que Hitchcock assumidamente tinha medo de polícia.

O filme ganhou algumas adaptações para a TV, e 44 anos depois ganhou uma refilmagem na obra de Andrew Davis, Um Crime Perfeito (A Perfect Murder, 1998), estrelado por Michael Douglas, Gwyneth Paltrow e Viggo Mortensen.

É uma obra cheia de diálogos e não contem muitas cenas de ação, por isso é preciso atenção redobrada para pegar o fio da meada, já que todas as cenas e todos os detalhes são importantes e podem passar despercebidos.

A tensão está presente do início ao fim, de uma forma que só Hitchcock poderia fazer, trazendo para nós o que há de melhor do cinema. Disque M para Matar é um grande filme, o qual infelizmente acabou ficando na sombra de outros mais famosos do diretor, mas que merece toda a atenção e respeito daqueles que se dizem fã de um bom suspense.